"Pensei que era moleza mas foi pura ilusão
Conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão"
(Melô do Marinheiro - Os Paralamas do Sucesso)
Esse blog é dedicado a todos que voam, que já voaram e que sonham em voar!





terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Natal em Belém


Não, não é a cidade onde Jesus nasceu.  É Belém do Pará mesmo!
Comecei a voar no mês de Dezembro, depois de três meses de curso. 
Como em aviação antiguidade é posto, eu como “carne nova” nem tive a opção de folgar nas festas de fim de ano.
O primeiro mês de um novo trabalho é sempre estimulante! Ainda mais se o trabalho é viajar pelo Brasil afora conhecendo novos lugares e tendo contato com outras culturas.
Quando peguei minha primeira escala de voo, tudo era novo para mim!  Pela programação ali impressa, eu estaria de sobreaviso no dia 23, iria para Porto Alegre no dia 24 em um voo pinga-pinga, onde passaria a noite de Natal, e no dia 25 de manhã iria a Buenos Aires, Montevideo, novamente Porto Alegre, São Paulo e finalmente Rio, chegando tarde da noite, numa programação que era conhecida como “Conheça a América do Sul em uma tarde”.
Na véspera do meu voo natalino, a programação mudou. Fui acionada no sobreaviso para o voo para Belém.  Ao invés do sul eu passaria a noite de Natal no norte, em Belém do Pará. Era um voo direto, de pouco mais de três horas, chegando em Belém pouco antes da meia noite. No dia seguinte (24) ficava inativo e dia 25 de manhã cedo retornava ao Rio, também direto.
Por mim tudo bem. Quem está na chuva é para se molhar.
Ao me apresentar para o voo, o instrutor que me acompanhava me disse feliz da vida: “A gente se deu bem com a troca de programação! O voo chega de volta ao Rio às 10 da manhã do dia 25. Ainda dá pra pegar o almoço de Natal!”
Quando fomos assinar a folha de apresentação (naqueles tempos jurássicos não tinha computador para passar cartão), uma surpresa. Toda a tripulação tinha sido reprogramada. Ao chegar em Belém prosseguiríamos no mesmo avião para Caiena, depois Paramaribo e retornaríamos a Belém para pernoitar.


Hein??? Onde???
Para quem não se lembra dos tempos de escola, e de fato a  gente até se esquece desses nossos vizinhos, Caiena é a capital da Guiana Francesa, e Paramaribo a capital do Suriname, antiga colônia holandesa.
Notei que a tripulação ficou contrariada. O comandante tentou argumentar, os demais comissários também. Mas eu, por ser nova na área não compreendi bem o porque. Pensei com meus botões que até que seria interessante pousar em dois países desconhecidos numa mesma noite.
Chegamos em Belém às onze e meia da noite. Foi o tempo de desembarcar os passageiros que vieram do Rio e embarcar os que iam para Caiena e Paramaribo. O avião estava lotado e eu sem entender o que tanta gente ia fazer naquele fim de mundo nas véperas do Natal. Havia passageiro de toda a espécie.Tinha indianos vestidos a caráter que reclamavam porque não tinham refeições vegetarianas para eles, tinha alguns com fortes traços indígenas, tinha africanos legítimos, e não afro-descendentes,  tinha europeus falando francês e inglês, tinha até brasileiros!


Pousamos em Caiena, alguns passageiros ficaram por lá e a maioria seguiu para Paramaribo. Chegando lá, todos desembarcaram e entraram outros passageiros, novinhos em folha, com a mesma variedade étnica.


A essa altura deviam ser umas  quatro horas da manhã, e a tripulação cantarolava a Melô do Marinheiro dos Paralamas do Sucesso com uma pequena modificação: "Entrei de gaiato no avião. Entrei, entrei, entrei pelo cano."


Pousamos de volta em Belém por volta das seis da manhã do dia 24. Nem preciso dizer que eu estava no bagaço... Mas todo mundo tentava entrar no clima, e combinamos para mais tarde uma reunião no quarto de alguém para passarmos juntos a noite de Natal.


Como o hotel não dava ceia de cortesia (tripulante adora cortesia!), e na noite de Natal seria dificil encontrar um lugar legal, acabamos ficando no quarto de alguém (não me lembro quem), comendo amendoim e bebendo cerveja. 


No dia seguinte pela manhã, já dentro do avião com passageiros embarcados, um barulho estranho em uma das turbinas.
Uma colega mais experiente passa por mim e sinaliza com o polegar para baixo. Ferrou!
Mais uma tentativa e o ruído da turbina fica ainda mais estranho.  Estranhíssimo, pensava eu sentada no jump seat. Ao meu lado uma outra colega, gaúcha, que tinha planos de pegar o voo para Porto Alegre assim que chegássemos no Rio, começou a chorar. Estava com a mala cheia de presentes para a família, o pai faria um belo de um churrasco.
E chama os mecânicos para ver qual era o problema, e testa a turbina de novo. Ainda não foi dessa vez. E mexe daqui, mexe dali, tem que trocar uma peça, mas tem que esperar a peça chegar de Manaus…
Resumindo: Pousamos no Rio às quatro da tarde, seis horas de atraso. Almoço de Natal nem pensar! Só no próximo ano.
Ou não…


Obs. Meus queridos leitores devem estar pensando que eu devo ser uma pessoa muito azarada, pois todas as minhas "primeiras vezes" na aviação foram problemáticas, vide Meu primeiro voo internacional. Realmente eu já parei para pensar se isso é uma questão cármica,  se Deus gosta de me botar à prova para me testar ou se é um mero acaso. Não cheguei a nenhuma conclusão definitiva. Mas agradeço a Ele pelos 20 anos sem sofrer nenhum acidente ou incidente sério e pelo fato de nunca ter precisado colocar minha vida em risco, e nem a vida de outras pessoas. Então considero esses contratempos que me ocorreram como um aprendizado para me tornar uma pessoa melhor e mais tolerante. Se eu consegui, isso eu não sei!


sábado, 26 de novembro de 2011

Dezembro: mês oficial do stress!

Os últimos dias do mês de Novembro são de muita ansiedade para os tripulantes. O motivo de tanto choro e ranger de dentes é a espera da publicação da escala do mês de Dezembro.

De acordo com a regulamentação do aeronauta, a escala mensal de voo deve ser publicada com uma antecedência mínima de dois dias antes do primeiro dia do mês posterior. Isso significa que a escala de Dezembro deve ser publicada no máximo até a manhã do dia 29 de Novembro.

Como Dezembro é mês der alta temporada, muitos voos extras, mudanças de última hora na programação, etc. e tal, é certeza de que a escala vai sair no último minuto!

O  motivo de tanta expectativa são as festas de fim de ano. "Onde estarei no Natal?" "E no Ano Novo?" Por mais que as pessoas se digam desapegadas das tradições familiares, que não ligam para Natal, que não se incomodam em ficar longe da família, na hora H percebem que as coisas não são bem assim.

Uma coisa é você passar as festas longe da família por opção sua. Ir para um lugar de sua escolha, estar com pessoas que você escolheu, ou até mesmo ficar sozinho, mas por vontade própria.
Outra bem diferente é passar essas datas em locais que foram determinados, com pessoas que não foram escolhidas por você.

Nós podemos até tentar entrar no clima do elemento surpresa: "Legal! Sem problemas! O resto da tripulação também vai estar sozinho, a gente se reúne e comemora!"
Mas pode acontecer de nem todo mundo estar na mesma vibe... E você passar sua noite assistindo ao especial de Natal do Roberto Carlos pela TV no seu quarto de hotel. Se estiver no Brasil.

Os mais descolados não se apertam e saem sozinhos mesmo. Esquecendo-se de que para o resto das pessoas aquelas datas são passadas em família, e com isso os lugares que em dias normais são badalados, naquelas datas vão estar às moscas com meia dúzia de gatos pingados enjeitados.

As empresas de grande porte geralmente permitem que o tripulante escolha uma data para folgar. Natal ou Ano Novo. Quem escolhe o Natal voa no Ano Novo, e vice versa. Mas não é cem por cento garantido do tripulante ganhar a folga solicitada! Quem tem pouco tempo de casa corre grande risco de voar nas duas datas. E mesmo os "antigões", por algum erro de escala podem não ter os pedidos atendidos.

Muito pior do que estar voando nessas datas é estar de reserva! Aí é tortura em alto grau! Não se sabe se vai ou se fica e não pode planejar nada com ninguém.

Depois da escala publicada não adianta chorar! Pode xingar, bater boca com a escala, dizer que foi injustiçado, etc. Pode até tentar trocar com alguém, mas vai ser difícil!

Enfim, faz parte! O stress que o tripulante sofre já foi comentado no post  Vai começar a pauleira.  Quem escolhe esse caminho não escolhe apenas uma profissão. Escolhe também um modo de vida. Você pode optar entre ficar estressado ou relaxar e deixar fluir. Se você quiser ser feliz na sua escolha de vida, eu aconselho a segunda opção.

Nos próximos posts, em homenagem à essa época natalina, escreverei sobre as festas de fim de ano que eu passei voando.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Relacionamentos e aviação


"Relacionamento não é aquela coisa colorida onde tudo se encaixa perfeitamente. O nome daquilo é Lego!" - sabedoria popular da net
 Muita gente se pergunta se é possível para um tripulante manter um relacionamento estável. O fato de passar vários períodos longe de casa, de estar sempre voando de um lugar para o outro e de estar cercado de pessoas bonitas, ou pelo menos interessantes não prejudicaria? E a tentação de dar uma "pulada de cerca", já que o que os olhos não veem o coração não sente?

A percepção daqueles que entram na aviação é de que vão encontrar "um mar de solteiros", como definiu o comissário Filipe Eloy em seu blog É tanto que transborda, leitura obrigatória para quem tem interesse em seguir a carreira.

Mas logo se vê que as coisas não são bem assim. Na verdade o número de tripulantes casados ou em  relacionamento estável ultrapassa o de solteiros, aí incluídos também os pilotos.

Essa estatística se deve a uma série de fatores, mas creio que o principal é aliviar a solidão que acomete esses profissionais.

Já comentei aqui em outros posts que, apesar do glamour, das viagens e das oportunidades de ter contato com várias pessoas, a profissão de aeronauta é muito solitária. Por isso a necessidade de ter alguém para chamar de seu, de ter um porto seguro, um lar para onde voltar, descansar e repor as energias para mais uma jornada.

Tripulantes, assim como os artistas, se casam muito entre si. O afastamento do grupo de amigos "terráqueos" é inevitável, e o convívio constante com os colegas também. Isso favorece os relacionamentos. Tem muitas comissárias casadas com pilotos ou com comissários, assim como casais homossexuais assumidos.

É um relacionamento com menos atritos, digamos assim, pois um conhece a rotina do outro. Por isso as cobranças são menores. Alguns casais solicitam escala fixa, mas não porque se amam de paixão e um não vive sem o outro rsrs... Mas por questões mais práticas, como morar longe do aeroporto e ter um carro só.
Deve-se ter cuidado porque nada como a convivência H24 para desgastar um relacionamento!

Os que se casam com pessoas que não são da aviação enfrentam atritos maiores, principalmente as mulheres. Homens são menos flexíveis em relação à rotina de trabalho da mulher comissária. Muitas vezes não entendem como é que a mulher chegou de viagem ontem e hoje já vai voar de novo e só volta dali a três dias! Ou então acham que são candidatos a chifrudos. É preciso ter maturidade e equilíbrio, além de confiança total um no outro. E volta e meia fazer o famoso DR (discutir a relação) rsrs... É preciso acima de tudo RESPEITO pela pessoa que escolheu estar a seu lado.

Muito importante também é o casal ter objetivos comuns. Pode ser desde comprar um imóvel até planejar uma viagem de férias. E uma vez alcançado o objetivo, cria-se outro, e mais outro.

Como muitas vezes a solidão e a carência andam juntas, é comum tripulantes caírem em ciladas por causa dela.

As comissárias podem atrair maridos chupins - expressão do tempo da minha avó - mas não achei outra melhor para definir homens que não são muito chegados ao batente, porém tem uma boa lábia e se fazem de imprescindíveis na vida da comissária carente. Por isso é preciso ser racional e estar atenta para não entrar nessa furada! Como se diz por aí: Treino é treino. Jogo é jogo. rsrs

Assim como o marido chupim, também existem as mulheres oportunistas que estão sempre rondando os tripulantes. Os pilotos são as maiores vítimas, pois são considerados "bons partidos" pela remuneração que recebem. Mas os comissários também não estão livres! Pode acontecer do comissário se apaixonar por uma mulher que trabalha, tem sua carreira e é independente, e pouco tempo depois do casamento essa mulher se desliga do emprego por qualquer razão, vira madame e passa a viver do salário e dos benefícios da profissão do marido. Maior propaganda enganosa!

O velho clichê do "piloto com a aeromoça", apesar de muito aumentado no imaginário popular, até existe. Eles jogam a isca, se colar colou. Tem as que se fazem de desentendidas. Tem as que fingem morder a isca mas na verdade quem acaba sendo fisgado são eles quando elas se tornam as "patroas" rsrs. E tem aquelas que ainda acreditam na velha história, mais velha do que a do piloto com a aeromoça, de que um dia "ele vai largar a mulher para ficar com ela".

Enfim, o ambiente da aviação, como qualquer outro meio adulto, não é puro nem inocente. Mas está longe de ser aquela orgia desenfreada que muita gente pensa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Filhos, trabalho e culpa

Para muitos pode parecer que a maternidade é incompatível com a profissão de comissária. Em tempos mais remotos essa percepção era tão certa que as "aeromoças" quando se casavam tinham que pedir demissão. Não era a toa que elas eram sempre aeroMOÇAS! rsrs

Mas eram outros tempos. Tempo em que muitas mulheres não trabalhavam fora, e as que trabalhavam ou estudavam deixavam de faze-lo quando se casavam para priorizar a família e os filhos que viriam.

Hoje os tempos mudaram. As mulheres trabalham fora não mais por opção, mas por necessidade mesmo. Quando são casadas, muitas vezes o salário do marido não é suficiente para sustentar a casa e os filhos. E por falar em filhos, a maternidade deixou de ser vinculada ao casamento. As mulheres tem filhos e continuam solteiras, ou se separam com os rebentos ainda pequenos.

Toda mãe que trabalha fora se sente culpada quando deixa o filho aos cuidados de terceiros. Fato. A função de mãe está ligada à culpa desde tempos imemoriais. A mãe é sempre a culpada de tudo!
Se o filho é um delinquente: culpa da mãe que não estava presente na formação dele!
Se o filho é mimado e imaturo: culpa da mãe que fazia todas as vontades dele!
Se vai mal na escola: culpa da mãe que não acompanha os estudos dele!
Se é estudioso, centrado e inteligente: a mãe não fez mais do que a obrigação!

A comissária pode perfeitamente conciliar o trabalho com a maternidade sem causar traumas nem deixar sequelas em ambos (mãe e filho).

Ao ser detectada a gravidez, a comissária deve notificar a empresa e sair da escala de voo. Comissárias não podem voar grávidas, não por causa do voo em si, mas pela natureza do trabalho a bordo que requer esforço físico.
Enquanto estiver afastada a funcionária recebe da empresa um salário maternidade, que consiste no salário em carteira, sem as horas de voo.

Como o INSS não considera gravidez como doença, e de fato não é, o salário maternidade é pago até o oitavo mês de gestação, quando após a perícia feita no CEMAL ou outro órgão responsável pela emissão do CCF, a comissária inicia a licença maternidade de 120 dias assegurada por lei a todas as mulheres que trabalham no regime de CLT.

Na prática a mãe comissária fica quase um ano afastada do trabalho, pois é costume emendar as férias na licença maternidade, barganhar mais uns 15 dias se o pediatra atestar que a criança precisa...

Até aí, tudo bem. Mas vai chegar a tão temida hora de retornar à escala de voo! Afinal, trabalhar é preciso!

A maioria das comissárias ou já são mães, ou um dia irão se tornar.

Apesar de saber que cada caso é um caso, que cada uma sabe aonde o calo mais aperta, que os conselhos para umas podem não servir para outras, e que se conselho fosse bom ninguém dava, só vendia, esse blog é dedicado para aqueles que voam, já voaram ou pensam em voar.
Então eu não poderia me furtar a deixar aqui registrado algumas dicas, sugestões e conselhos grátis de alguém que já passou pela experiência e já sentiu na pele toda culpa e toda a angústia, mas que sabe que tudo isso valeu a pena.
Os conselhos a seguir são baseados em experiências próprias e de outras comissárias mães, guerreiras e dedicadas que generosamente compartilhavam as vivências com as companheiras de jornada.


  • Tente (pelo menos tente) manter o corpo em forma durante a gravidez. Nada de achar que você tem que comer por dois! Lembre-se de que você vai ter que caber dentro do uniforme quando retornar.

  • Mesmo que você tenha ajuda de terceiros, procure uma creche para seu bebê por meio período. Existem creches que aceitam bebês a partir de seis meses. Procure uma próxima da sua casa. Se tiver referências melhor. Se não tiver, peça para conhecer as dependências, converse com pedagogas e psicólogas, faça visitas surpresa, converse com outras mães que tem filhos lá. É importante para criança se socializar desde cedo, além de não sobrecarregar a pessoa que está te ajudando, porque afinal de contas a mãe é você e não ela!
  • Obs. Não se iluda pensando que a sua mãe vai ter sempre a maior boa vontade em te ajudar. Volta e meia elas reclamam mesmo, porque uma coisa é ser avó e só paparicar o netinho, outra coisa é ficar no seu lugar de mãe enquanto você está voando.

  • Ao contratar uma empregada, faça isso enquanto estiver de licença maternidade para poder observar de perto a postura dela e como seu filho reage a ela. Explique como será sua rotina quando você retornar ao trabalho. Deixe claro que você trabalha aos domingos e feriados e pergunte se ela está disposta a encarar essa rotina. Você pode compensa-la com folgas durante a semana.  
No quesito empregada doméstica vale ressaltar que nem sempre elas cumprem o prometido!  Enquanto você está de licença está tudo bem, mas no primeiro domingo ou feriado que elas tiverem que trabalhar, pode acontecer de roerem a corda e mudarem de idéia. Por isso esteja muito segura da pessoa que contratar!

  •  Não pense que só porque seu filho ainda é um bebê ele não vai sentir sua ausência. Crianças muito pequenas manifestam suas emoções somatizando febre alta, erupções cutâneas, vômitos, etc. Prepare-se para a possibilidade de chegar de voo e ter que decolar novamente rumo ao pediatra com seu filho no colo. Tenha em mente que isso é uma fase e vai passar. Não se sinta culpada (pelo menos tente!).

  • Em uma determinada fase pode acontecer de seu filho começar a chorar toda vez que você vestir o uniforme. Isso acontece por volta dos três anos, mas pode variar. Resista para não chorar também. Faça das tripas coração, fale com ele com muita calma e carinho, mas com firmeza, que a mamãe tem que sair para trabalhar, mas que sempre vai voltar para ficar com ele. Não ceda aos apelos, a não ser que ele esteja realmente doente. Se você ceder, ele vai entender que essa é a maneira de manter a mamãe perto dele e continuará fazendo. Lembre-se novamente de que isso é uma fase e também vai passar!

  • Sei que é inútil dizer para uma mãe que se sente culpada por estar longe do filho para evitar trazer presentes toda vez que chega de voo! Claro que você vai ver um monte de coisas bonitas e diferentes que seu filho vai gostar! E que você vai comprar essas coisas! E vai ter o impulso de abrir a mala assim que chegar em casa para mostrar os presentes, como forma de compensar sua ausência. E com isso a criança vai associar sua chegada aos presentes que ela vai ganhar! E ao invés de você, o interesse dela vai estar concentrado na sua mala!
Então faça o seguinte: Compre os presentes que você quiser, mas não dê ao seu filho de imediato. Guarde para dar em um dia especial, como aniversário, dia das crianças ou algo assim. Vá juntando o que você trouxer e dê nesses dias. Presentear o filho uma vez ou outra quando se chega de voo não tem problema. Mas fazer disso um hábito não é benéfico nem para a criança, que se torna interesseira e nem para a mãe, que se vê na obrigação de sempre comprar presentes.

  • Quando seu filho tiver idade suficiente, leve-o em um voo que você esteja tripulando. Assim ele vai poder ver como é seu ambiente de trabalho, o que você faz a bordo e ainda vai poder curtir um pernoite com você no hotel (eles adoram hotéis!) e dependendo do voo fazer alguns passeios. Eu levei meu filho comigo pela primeira vez quando ele tinha quatro anos. Era um voo para Manaus com escala em Brasília, e o pernoite era em um hotel maravilhoso. Ele adorou e se comportou bem a bordo. Os colegas ajudam e às vezes até os passageiros. Depois disso fiz voos mais longos com ele, para Europa e Estados Unidos.

No final de tudo, eles sentem muito orgulho de nós! E ainda tiram onda com os amigos contando das viagens que eles fizeram. O mundo se abre para eles também, pois a oportunidade de ter contato com outras culturas e visitar outros países não tem preço e faz uma grande diferença na formação do caráter deles e na visão que eles terão do mundo e das pessoas.

E isso faz todo sacrifício valer a pena!

sábado, 22 de outubro de 2011

Dia do Aviador

No dia 23 de Outubro de 1906, o brasileiro Alberto Santos Dumont a bordo do 14 Bis decolou do Campo de Bagatelle em Paris e percorreu 60 metros, voando a uma altura de cerca de três metros do solo na frente de centenas de testemunhas.
Com esse feito ganhou a taça Archdeacon e a prova para aparelhos mais pesados que o ar, nome que os futuros aviões tinham na época.

O 14 Bis, que levou cerca de dois meses para ser construído, foi o primeiro avião do mundo a realizar um voo completo: decolagem, o voo propriamente dito e pouso.

Porém, a autoria da invenção do avião foi atribuída a dois irmãos americanos, os irmãos Wright, por questões nacionalistas e de outros interesses em jogo.

Santos Dumont, por sua personalidade idealista nunca patenteou seus inventos. Preferiu coloca-los à disposição de quem quisesse construi-los e utiliza-los.

Para os brasileiros Santos Dumont É o Pai da aviação, mesmo que o mundo diga o contrário. Por isso o dia 23 de Outubro no Brasil é o Dia do Aviador.

Graças a esse homem genial, controverso e idealista hoje podemos realizar o sonho ancestral da humanidade de voar sem ter asas. E quem já experimentou o gosto de voar não consegue mais ficar com os pés na terra sem olhar para o céu.

"Haverá hoje, talvez, quem ridicularize minhas previsões sobre o futuro dos aeroplanos. Quem viver, porém, verá..." Alberto Santos Dumont. Paris, França - 1905.

sábado, 15 de outubro de 2011

Coisas que nos irritam - Encomendas



Se há algo que irrita tripulantes em geral, em especial os comissários por serem os mais procurados, são as encomendas que as pessoas fazem sempre que eles vão viajar.
  Pelo fato do comissário ter acesso fácil a bens de consumo em outros países, tem gente que pensa que eles tem obrigação de aceitar encomendas, por mais estapafúrdias que elas sejam.

Vou transcrever aqui um texto que apesar de não ser meu não poderei dar os créditos, pois encontrei na internet e não constava o autor. Mas resume perfeitamente esse péssimo hábito que o povo tem de fazer encomendas aos que vão viajar. O texto se refere àqueles que viajam a turismo, mas é só multiplicar por 1000 para se ter uma idéia de como isso irrita os comissários:
"Fazer encomendas a quem viaja é um dos costumes mais antigos que existem.

E põe antigo nisso. Fazer encomenda é do tempo em que se tinha medo de avião. Do tempo em que família, a família da namorada, algumas ex-namoradas e o prédio inteiro iam se despedir de você no aeroporto — até na ponte aérea. Do tempo em que o exterior era conhecido como “o estrangeiro”. Do tempo em que produto importado era não apenas raro, como na maioria das vezes ilegal.

Hoje em dia, dependendo da natureza do pedido e do grau de relacionamento entre o pedinte e o viajante, a encomenda pode variar entre: 

1) um mau costume; 

2) uma total falta de educação.

Na hora de pedir — e de aceitar — uma encomenda, ninguém se dá conta do transtorno que vai ser, em algum momento da viagem, parar para pensar na encomenda, andar para comprar a encomenda, achar a encomenda, conferir as especificações da encomenda, pagar a encomenda, empacotar a encomenda, fazer a encomenda caber na mala, carregar a encomenda, passar pela alfândega com a encomenda.
A última vez que eu fiz uma encomenda, foi para uma (ex) funcionária minha que tinha acabado de pedir demissão e ia passar uma semana em Paris. Como você vê, ela merecia.
As encomendas enganam. 
As que parecem fáceis demais sempre têm dois ou três modelos para você escolher (e ninguém te falou isso antes). Com as super-especificadinhas, é batata: a linha foi renovada, mudaram os nomes e as embalagens, e esqueceram de avisar a pessoa que te fez a encomenda. Outras encomendas até que fazem sentido no calor do momento, mas acabam ininteligíveis na hora que você retoma o assunto e vai comprar: o que era aquilo mesmo que ela falou?
 Resista. Mude de assunto. Tenha uma vontade súbita de ir ao banheiro, e suma. Se for para perder o amigo, melhor que seja agora do que na volta (depois do trabalhão que a encomenda vai ter dado). Se você quiser lançar mão de desculpas e subterfúgios educados, aqui vão alguns.
• Peça o endereço da loja. Endereço completo, por favor. Se for necessário, seja acometido por uma amnésia rápida: Broadway? Como assim, Broadway? Ou mude-se mentalmente para o outro lado da cidade e prometa que, se passar por lá, vai tentar, quem sabe se tudo correr bem, achar.

• Peça por escrito. “Você me passa depois tudo direitinho por escrito?”. E não esqueça de desligar o fax.

• Se o pedinte for seu superior hierárquico ou parente mais velho: minta. Minta deslavadamente. Fale que você procurou feito um doido mas não achou. Descreva todas as coisas que você supostamente deixou de fazer só para procurar a encomenda. Misture as letras da marca encomendada, e diga que ninguém nuuunca ouviu falar desta marca lá onde você foi.
 • Se você aceitar a encomenda e depois se arrepender: não traga nada. Compre mais um exemplar deste elucidativo compêndio e dê de presente — com um post-it amarelinho colado na página inicial deste capítulo."
Em relação a encomendas, vou acrescentar algumas coisas que deixam os comissários loucos da vida. Geralmente as encomendas não vem acompanhadas de dinheiro. É na base do "compra aí que na volta a gente acerta". E na hora do acerto muitas vezes saímos perdendo. A compra foi feita em Dólares ou Euros, e o pagamento é em Real com câmbio defasado! Isso quando não se leva calote. A pessoa faz a encomenda e passada a euforia do momento se arrepende. E aí não te atende mais ao telefone, manda dizer que não está, some do mapa!

Outra coisa irritante são os "favores" que as pessoas acham que comissários tem que prestar, já que "vivem viajando mesmo".

Como no caso da esposa de um conhecido que tinha um salão de beleza, e perguntou se eu poderia trazer para ela três potinhos de um creme para cabelos. Eu não precisaria fazer nada. O irmão dela que morava em Nova York passaria no meu hotel e deixaria os cremes. Ao perguntar qual era o tamanho dos potes fui informada de que eram mais ou menos do tamanho de uma lata de refrigerante.

Resumindo a história, o irmão passou no hotel tarde da noite, e para não me acordar deixou os cremes na recepção. No dia seguinte quando eu peguei, constatei que cada "potinho" do tal creme, além de ser bem maior do que uma lata de refrigerante, pesava pelo menos três quilos! Ódio!

Fora os telefonemas que você recebe de gente que você nunca ouviu falar se apresentando como "primo do vizinho da cunhada da sua amiga", aquela sua amiga muy amiga que deu seu telefone, te pedindo para comprar um remédio específico, ou pior, para levar alguma encomenda para alguém.

Como muitos dos que acessam esse blog tem interesse em ser comissário, vou deixar aqui dois conselhos que dou de graça:

1) NUNCA aceite levar pacotes de terceiros para alguém, principalmente se o voo é para o exterior. Nem se for um ursinho de pelúcia para a netinha de uma avozinha muito simpática e querida. Mas se for impossível escapar dessa cilada, abra o pacote e confira detalhadamente o conteúdo. Comissários são muito visados para transportar coisas ilícitas. Até você explicar que focinho de porco não é tomada...

2) Não tenha receio de recusar encomendas de ninguém. Nem da sua mãe! Às vezes até a mãe da gente perde a noção. Diga um NÃO bem redondo! Se a pessoa ficar magoada e ofendida, azar o dela. Antes ela magoada do que você irritado(a), estressado(a) e cheio(a) de rugas!


 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Saudades dos tempos da Pan Am...

Uma nova série estréia na ABC, rede de TV americana. Não sei quando ou se vai chegar às terras tupiniquins, mas quem puder baixar no Tio Tube, no site da ABC ou conseguir com um amigo que mora na América, vale super a pena!

Era uma vez uma época glamourosa, nos distantes anos 60, onde a galera curtia sexo, drogas e rock'n'roll, mas também era um tempo em que as mulheres, inclusive as comissárias tinham o direito de serem mulézinhas, e não a multimulher que somos obrigadas a ser agora.

Era uma vez um tempo em que póóóbre passava longe de avião, e onde viagens aéreas eram privilegio de poucos.

Milton Nascimento (aquele que estava mais perdido do que o cego Stevie Wonder em tiroteio no Rock in Rio) fez uma canção chamada "Saudades dos aviões da Panair". 
Eu não me lembro da Panair. Quando ela foi "falida" pela ditadura militar eu era muito pequena para me lembrar de qualquer coisa.

Mas da Pan American eu me lembro bem! Lembro do glamour e também da queda. E por causa disso eu sei que o mundo é redondo, e que tudo se desloca. (Quem leu As Brumas de Avalon sabe do que eu estou falando). Um dia você dorme rei, no outro acorda mendigo.




Como sugestão de filmes que valem a pena para quem gosta ou quer entrar na aviação, sugiro Prenda-me se for Capaz, com Leonardo Di Caprio e Tom Hanks.


O tema principal do filme não é a aviação. Mas eu garanto que vocês vão gostar. E muito!!!

Para quem quiser baixar a série legendada, ela está disponível AQUI, ou no  Portal Meio Aéreo