Nos voos para o Japão não podia faltar Cup Noodles! Essa foto demonstra o quanto essa sopinha sem vergonha agradava aos passageiros, principalmente os japoneses.
Os pacotes embarcavam na galley traseira, e por incrível que pareça no final de onze horas de voo não sobrava nenhuma para contar a história! Mesmo porque as remanescentes eram levadas para o hotel pelos tripulantes como kit de sobrevivência ao fuso horário.
O Cup Noodles era servido no intervalo de tempo entre os dois serviços de bordo. Como avião é um espaço confinado onde não se tem muito o que fazer, os passageiros passam o tempo distraindo os dentes.
É um tal de ir gente na galley atrás de alguma coisa para comer que não para nunca. Aí os comissários preparavam os Cup Noodles colocando água quente e esperando o tempo determinado e a japonesada saía feliz da vida com seu copinho na mão.
Desnecessário dizer que quando outros passageiros viam também iam atrás do seu, confirmando a máxima bem conhecida entre os comissários que diz que quando "macaco vê, macaco quer".
As sopinhas que embarcavam no voo da ida (Los Angeles-Narita) eram americanas, As do voo da volta eram japonesas e muito apreciadas inclusive pelos tripulantes. Especialmente uma de camarão que era disputada a tapa pela galera.
Confesso que nunca fui chegada a Cup Noodles. O que era uma pena pois era a salvação dos tripulantes nas madrugadas insones nos hotéis por causa do fuso horário. Nada como uma sopa quentinha para acalmar o estômago e chamar o sono.
Ao final de cada voo os Cup Noodles restantes eram divididos por todos para levar para o hotel. Mas às vezes não sobrava para todo mundo, ou a galera da Classe Econômica, detentora dos Cup Noodles, já malocava os seus antes, e para os pobres colegas da Primeira Classe e da Executiva (meu caso) não sobrava nada.
Já levei algumas vezes para o hotel, para o caso emergencial de larica noturna. Mas de outras vezes quando eu ia solicitar o meu recebia como resposta que tinham acabado.
Saudades dos voos para o Japão. A gente se descadeirava, mas se divertia...
"Pensei que era moleza mas foi pura ilusão
Conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão"
(Melô do Marinheiro - Os Paralamas do Sucesso)
Esse blog é dedicado a todos que voam, que já voaram e que sonham em voar!
Mostrando postagens com marcador minhas memórias. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 22 de abril de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
Paris... ah, Paris!!!
Desde que comecei a voar meu objetivo sempre foi fazer voos internacionais. Não que o Brasil não seja grande e apaixonante, mas sempre fui curiosa, sempre gostei de história e meu sonho era estar nos lugares que eu via em filmes e livros.
Para mim o auge, o must, o tudo de bom, os píncaros da glória da carreira do comissário é quando ele pega um voo para Paris. Isso já foi mostrado inclusive no filme Voando Alto, com a Gwyneth Paltrow. Por que Paris e não New York, Roma ou Londres? Todos esses lugares exercem fascínio em todo mundo e eu particularmente prefiro Londres "a nivel de" cidade hehehe... Mas isso é assunto para outro post.
Mas Paris tem carisma, tem apelo, tem charme. Só o nome já nos transporta para um mundo lindo e sofisticado... Paris! Imagine você anunciando para sua família que vai para Paris. Imagine a cara de espanto dos seus amigos ao saberem disso! Imagine a cara de tacho dos seus inimigos!
É muito phyno, muito sophistikeide dizer que você não vai estar disponível no fim de semana porque está indo para Paris. Mas a verdade é que com o passar do tempo se torna cansativo tentar convencer as pessoas de que você não é metida a besta nem esnobe, porque IR PARA PARIS FAZ PARTE DO SEU TRABALHO, POHAMMM!!! Quantas vezes eu tive vontade de dizer que ia para Macapá ao ser perguntada para onde seria meu próximo voo, só para não ter que escutar as mesmas piadinhas de sempre.
Meu primeiro voo para a cidade-luz foi um acontecimento na família. Eu já tinha estado em Paris uma vez aos 14 anos com meus pais e meu irmão. Mas a perspectiva é bem diferente quando se é uma mulher adulta, e ainda por cima ir tripulando um voo.
Minha avó desencavou de seus guardados casacos, luvas e uma espécie de echarpe de pele de algum animal, que tinha numa extremidade a cabeça do bichinho, e na outra o rabo e as patas traseiras. Jesus! Até convence-la de que eu seria linchada nas ruas se saísse com esse modelito que era super in em outras eras mas completamente inadequado agora demorou!
Minha mãe me fez levar um guia da cidade, dos pontos turísticos, dos museus, etc. Apesar do lay over ser de pouco mais de 24 horas. Mas nada disso foi preciso. Os colegas mais antigos curtem quando tem um novato na tripulação. Gostam de dar todas as dicas de onde comer, onde comprar, como se locomover. É bacana ver o brilho nos olhos do neófito! A gente fica se sentindo!
Uma das melhores coisas de Paris é o metrô. Ele te leva para absolutamente TODOS os lugares da cidade e não é dificil de se orientar. Até para pessoas sem nenhum senso de direção, como esta que vos escreve. É tudo muito bem sinalizado: as estações, as correspondences que são as baldeações que a gente deve fazer. Depois de algumas vezes você já se sente um parisiense! E com isso fica mais confiante para bater perna pela cidade.
Perdi a conta das vezes em que fui a Paris. Já fui em voo direto e em voo com escala. Já fiz voo com dias inativos e voo só com pernoite. Já fiz voos diurnos, noturnos, já fui de tripulante extra. Em todas as vezes aproveitei ao máximo.
Uma vez era segunda feira e o museu do Louvre estava fechado para limpeza. Resolvi ir ao cemitério. Em Paris tem o Cemitério Pére-Lachaise, atração turística onde estão enterrados Alan Kardec, Edith Piaf, Jim Morrison entre outros.
Fomos eu e uma colega, foi um ótimo passeio para uma segunda feira. Nunca gostei de sair em bando. Os melhores programas que eu fiz foram em duas ou três pessoas no máximo. Mais do que isso é multidão. Cada um quer fazer uma coisa diferente, cada um tem seu ritmo e fatalmente alguns saem prejudicados.Experiência própria! Fica a dica!
Para mim o auge, o must, o tudo de bom, os píncaros da glória da carreira do comissário é quando ele pega um voo para Paris. Isso já foi mostrado inclusive no filme Voando Alto, com a Gwyneth Paltrow. Por que Paris e não New York, Roma ou Londres? Todos esses lugares exercem fascínio em todo mundo e eu particularmente prefiro Londres "a nivel de" cidade hehehe... Mas isso é assunto para outro post.
Mas Paris tem carisma, tem apelo, tem charme. Só o nome já nos transporta para um mundo lindo e sofisticado... Paris! Imagine você anunciando para sua família que vai para Paris. Imagine a cara de espanto dos seus amigos ao saberem disso! Imagine a cara de tacho dos seus inimigos!
É muito phyno, muito sophistikeide dizer que você não vai estar disponível no fim de semana porque está indo para Paris. Mas a verdade é que com o passar do tempo se torna cansativo tentar convencer as pessoas de que você não é metida a besta nem esnobe, porque IR PARA PARIS FAZ PARTE DO SEU TRABALHO, POHAMMM!!! Quantas vezes eu tive vontade de dizer que ia para Macapá ao ser perguntada para onde seria meu próximo voo, só para não ter que escutar as mesmas piadinhas de sempre.
Meu primeiro voo para a cidade-luz foi um acontecimento na família. Eu já tinha estado em Paris uma vez aos 14 anos com meus pais e meu irmão. Mas a perspectiva é bem diferente quando se é uma mulher adulta, e ainda por cima ir tripulando um voo.
Minha avó desencavou de seus guardados casacos, luvas e uma espécie de echarpe de pele de algum animal, que tinha numa extremidade a cabeça do bichinho, e na outra o rabo e as patas traseiras. Jesus! Até convence-la de que eu seria linchada nas ruas se saísse com esse modelito que era super in em outras eras mas completamente inadequado agora demorou!
Minha mãe me fez levar um guia da cidade, dos pontos turísticos, dos museus, etc. Apesar do lay over ser de pouco mais de 24 horas. Mas nada disso foi preciso. Os colegas mais antigos curtem quando tem um novato na tripulação. Gostam de dar todas as dicas de onde comer, onde comprar, como se locomover. É bacana ver o brilho nos olhos do neófito! A gente fica se sentindo!
Uma das melhores coisas de Paris é o metrô. Ele te leva para absolutamente TODOS os lugares da cidade e não é dificil de se orientar. Até para pessoas sem nenhum senso de direção, como esta que vos escreve. É tudo muito bem sinalizado: as estações, as correspondences que são as baldeações que a gente deve fazer. Depois de algumas vezes você já se sente um parisiense! E com isso fica mais confiante para bater perna pela cidade.
Perdi a conta das vezes em que fui a Paris. Já fui em voo direto e em voo com escala. Já fiz voo com dias inativos e voo só com pernoite. Já fiz voos diurnos, noturnos, já fui de tripulante extra. Em todas as vezes aproveitei ao máximo.
Uma vez era segunda feira e o museu do Louvre estava fechado para limpeza. Resolvi ir ao cemitério. Em Paris tem o Cemitério Pére-Lachaise, atração turística onde estão enterrados Alan Kardec, Edith Piaf, Jim Morrison entre outros.
Fomos eu e uma colega, foi um ótimo passeio para uma segunda feira. Nunca gostei de sair em bando. Os melhores programas que eu fiz foram em duas ou três pessoas no máximo. Mais do que isso é multidão. Cada um quer fazer uma coisa diferente, cada um tem seu ritmo e fatalmente alguns saem prejudicados.Experiência própria! Fica a dica!
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Histórias de mala
Todo tripulante ganha da empresa como parte do uniforme as malas que ele usará quando estiver a serviço. Geralmente são duas, uma grande e uma pequena, fora o porta casacos que em alguns casos serve para carregar mais do que casacos hehehe...
A mala maior é usada em voos internacionais pelo tempo que passamos fora e pelo fato de que no inverno temos que levar roupas mais volumosas.
As empresas não permitem que tripulantes portem malas diferentes daquelas que eles dão. Também é proibido ao tripulante portar objetos fora da mala tipo sacolas ou coisas grandes demais para caber nas mesmas. Então a gente tem que se virar com o espaço que nos permitem.
Meus primeiros voos para Miami foram uma orgia de compras desenfreada! Tudo que eu via eu achava que precisava e tinha que ter, e confesso que muitas das coisas compradas no calor do momento se revelaram sem qualquer utilidade prática e acabaram jogadas num canto e se não encontrasse ninguém para doar iam para o lixo.
Normal. A gente fica como criança em loja de brinquedos tamanha a variedade de coisas diferentes e com um preço bom. Quer levar tudo! Para nós, para a família e amigos.
Confesso que em vinte anos de voo nunca aprendi a arrumar uma mala direito como já vi colegas fazerem com maestria.
Certa vez em um desses voos para Miami eu comprei mais do que deveria. Na hora de arrumar as malas não conseguia acomodar minhas compras e fui ficando desesperada.
Liguei para o quarto de uma colega pedindo socorro. Ela veio e em menos de dez minutos conseguiu acondicionar todas as tranqueiras que eu tinha comprado! Fiquei muito agradecida e impressionada com esse dote que eu nunca tive.
Com o tempo aprendemos alguns macetes, como tirar coisas das embalagens e dobrar as mesmas de modo a aproveita-las depois, colocar uma coisa dentro da outra para ganhar espaço, otimizar os cantinhos da mala com coisas que não quebram nem amassam. Mas nunca atingi a perfeição!
A medida que o tempo passa a gente fica mais seletivo com as compras. Pensamos duas vezes antes de levar algo, questionamos se realmente vale a pena levar aquela toalha de banho linda e com preço ótimo, mas que vai ocupar metade da mala. Às vezes funciona. Às vezes a gente compra assim mesmo. rsrs
A mala maior é usada em voos internacionais pelo tempo que passamos fora e pelo fato de que no inverno temos que levar roupas mais volumosas.
As empresas não permitem que tripulantes portem malas diferentes daquelas que eles dão. Também é proibido ao tripulante portar objetos fora da mala tipo sacolas ou coisas grandes demais para caber nas mesmas. Então a gente tem que se virar com o espaço que nos permitem.
Meus primeiros voos para Miami foram uma orgia de compras desenfreada! Tudo que eu via eu achava que precisava e tinha que ter, e confesso que muitas das coisas compradas no calor do momento se revelaram sem qualquer utilidade prática e acabaram jogadas num canto e se não encontrasse ninguém para doar iam para o lixo.
Normal. A gente fica como criança em loja de brinquedos tamanha a variedade de coisas diferentes e com um preço bom. Quer levar tudo! Para nós, para a família e amigos.
Confesso que em vinte anos de voo nunca aprendi a arrumar uma mala direito como já vi colegas fazerem com maestria.
Certa vez em um desses voos para Miami eu comprei mais do que deveria. Na hora de arrumar as malas não conseguia acomodar minhas compras e fui ficando desesperada.
Liguei para o quarto de uma colega pedindo socorro. Ela veio e em menos de dez minutos conseguiu acondicionar todas as tranqueiras que eu tinha comprado! Fiquei muito agradecida e impressionada com esse dote que eu nunca tive.
Com o tempo aprendemos alguns macetes, como tirar coisas das embalagens e dobrar as mesmas de modo a aproveita-las depois, colocar uma coisa dentro da outra para ganhar espaço, otimizar os cantinhos da mala com coisas que não quebram nem amassam. Mas nunca atingi a perfeição!
A medida que o tempo passa a gente fica mais seletivo com as compras. Pensamos duas vezes antes de levar algo, questionamos se realmente vale a pena levar aquela toalha de banho linda e com preço ótimo, mas que vai ocupar metade da mala. Às vezes funciona. Às vezes a gente compra assim mesmo. rsrs
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Encontro em Samarra
Era Dezembro de 1986. Eu completava meu primeiro ano de voo, e como "presente" minha turma ganhou uma promoção para Chefe de Equipe.
Também conhecidos como Chefe de Cabine, Comissário Chefe ou Lider, dependendo da empresa, esse profissional atua como gerente da tripulação de comissários, ganha uma gratificação pelo cargo e fica responsável por resolver pepinos e descascar abacaxis.
Passageiro está reclamando de alguma coisa? Chama o Chefe! Um dos comissários está trabalhando mal? Fala com o Chefe! Passageiro teve um piripaco e está estendido no chão? Avisa ao Chefe! Comandante vai dar esporro? Quem escuta é o chefe! Comissário ficou doente no hotel, sofreu um acidente durante o pernoite, foi preso? É com o Chefe!
Naquela época a empresa estava contratando bastante, e como em aviação antiguidade é posto, as promoções aconteciam precocemente. Com apenas um ano de voo, nem eu nem meus colegas de turma estávamos preparados psicologicamente para assumir esta responsabilidade. Mas, como nada nos foi perguntado, simplesmente quando fomos pegar a escala de voo descobrimos que tínhamos mudado de função... O jeito foi entubar.
E para completar (nada é tão ruim que não possa ficar pior...), eu e outros colegas tivemos que acumular a função de Chefe de Equipe com a de instrutor! Colocaram uma comissária recém formada para voar fixa comigo! Sem contar que, com a promoção, eu passei de comissária "antigona" a chefe "novinha", isto é, estava de novo no rabo da fila!
Por isso que eu me encontrava fazendo reserva no Galeão no dia primeiro de Janeiro de 1987. Entre os voos que eu cobria, estava o voo 797, com destino a Abidjan na Costa do Marfim.
Quando entramos para trabalhar numa empresa que também faz voos internacionais, começamos fazendo voos domésticos e só depois de um tempo é que passamos para os voos internacionais. Voos para a América do Sul são considerados internacionais regionais e são operados pelos mesmos equipamentos que fazem voos domésticos. Os voos para o continente africano também eram com os mesmos equipamentos. por isso, mesmo não sendo comissários "internacionais" nós fazíamos essas rotas.
Nunca tinha estado em Abidjan. Curiosa que sempre fui, queria fazer um voo desses para entre outras coisas comprar pulseiras e colares de marfim.
Mas a tripulação titular foi chegando aos poucos. Faltou um comissário auxiliar e acionaram uma novinha. Poucos meses de voo. Dezoito anos. Deixou a família na Bahia e veio atrás do sonho de voar. Ela ficou felicíssima!
Faltava chegar um Chefe de Equipe, nesse voo eram dois. Eu fiquei na torcida para o segundo não chegar. A outra chefe era Gisela. Já tínhamos voado juntas algumas vezes, ela era boa colega e boa companhia para o pernoite. Seria bom eu me juntar a ela no voo. Mas na última hora chegou o titular do voo.
Fiquei decepcionada! Me despedi da Gisela: "Poxa, ainda não será dessa vez que eu vou conhecer Abidjan!" E ela: "Que pena! Queria que você fosse! Fica pra próxima!" Foi a última vez que nos falamos.
No dia seguinte fui fazer meu voo programado. No dia 3 de Janeiro pousei de volta no Galeão por volta de dez da manhã. O despachante que recebeu nosso voo, mal abriu a porta e ao invés de Bom Dia soltou:"Vocês souberam do Abidjan?"
E a gente não sabia de nada. Chegávamos de Belém depois de três horas de voo. Ele, ao perceber que não sabíamos ainda, tentou dourar a pílula: "O avião sumiu!"
Como assim sumiu? O que aconteceu? O que foi que houve? Alguém morreu? Mas depois da gafe inicial, nosso colega do aeroporto ficou evasivo e reticente.
Fomos para o DO. Todos ali com cara de enterro. O avião não tinha sumido. Tinha sofrido um grave acidente na decolagem de Abidjan quando voltava para o Brasil. Caiu a poucos quilômetros do aeroporto e explodiu. Lá estava a lista de tripulantes do voo fatídico. Sem acreditar ainda no que tinha acontecido eu fui lendo. Dentre eles estava minha amiga Gisela. A baiana Celina de apenas dezoito anos, que tinha tanta saudade do irmão pequeno que andava com a foto dele na bolsa, e que queria tanto ser comissária que tinha dito à mãe dela que se ela morresse agora morreria feliz. O comandante Carneiro, conhecido como Carneirinho, brincalhão e querido de todo mundo. O rapaz cuja irmã também era comissária. O outro que trabalhava fazendo a escala dos comissários e que tinha passado para o voo há pouco tempo. E todos os demais. Todos mortos!
Fui para casa em estado de choque. Tinha me dado conta da minha própria vulnerabilidade humana. Percebi que não somos nada. Que a vida é uma passagem. Que o presente tem esse nome porque cada dia que estamos vivos é um presente. Que ninguém pode viver o destino de outro.
Lembrei-me de um conto que eu já tinha lido há anos, mas que naquele momento fazia todo sentido. Encontro em Samarra de Somerset Maugham:
Também conhecidos como Chefe de Cabine, Comissário Chefe ou Lider, dependendo da empresa, esse profissional atua como gerente da tripulação de comissários, ganha uma gratificação pelo cargo e fica responsável por resolver pepinos e descascar abacaxis.
Passageiro está reclamando de alguma coisa? Chama o Chefe! Um dos comissários está trabalhando mal? Fala com o Chefe! Passageiro teve um piripaco e está estendido no chão? Avisa ao Chefe! Comandante vai dar esporro? Quem escuta é o chefe! Comissário ficou doente no hotel, sofreu um acidente durante o pernoite, foi preso? É com o Chefe!
Naquela época a empresa estava contratando bastante, e como em aviação antiguidade é posto, as promoções aconteciam precocemente. Com apenas um ano de voo, nem eu nem meus colegas de turma estávamos preparados psicologicamente para assumir esta responsabilidade. Mas, como nada nos foi perguntado, simplesmente quando fomos pegar a escala de voo descobrimos que tínhamos mudado de função... O jeito foi entubar.
E para completar (nada é tão ruim que não possa ficar pior...), eu e outros colegas tivemos que acumular a função de Chefe de Equipe com a de instrutor! Colocaram uma comissária recém formada para voar fixa comigo! Sem contar que, com a promoção, eu passei de comissária "antigona" a chefe "novinha", isto é, estava de novo no rabo da fila!
Por isso que eu me encontrava fazendo reserva no Galeão no dia primeiro de Janeiro de 1987. Entre os voos que eu cobria, estava o voo 797, com destino a Abidjan na Costa do Marfim.
Quando entramos para trabalhar numa empresa que também faz voos internacionais, começamos fazendo voos domésticos e só depois de um tempo é que passamos para os voos internacionais. Voos para a América do Sul são considerados internacionais regionais e são operados pelos mesmos equipamentos que fazem voos domésticos. Os voos para o continente africano também eram com os mesmos equipamentos. por isso, mesmo não sendo comissários "internacionais" nós fazíamos essas rotas.
Nunca tinha estado em Abidjan. Curiosa que sempre fui, queria fazer um voo desses para entre outras coisas comprar pulseiras e colares de marfim.
Mas a tripulação titular foi chegando aos poucos. Faltou um comissário auxiliar e acionaram uma novinha. Poucos meses de voo. Dezoito anos. Deixou a família na Bahia e veio atrás do sonho de voar. Ela ficou felicíssima!
Faltava chegar um Chefe de Equipe, nesse voo eram dois. Eu fiquei na torcida para o segundo não chegar. A outra chefe era Gisela. Já tínhamos voado juntas algumas vezes, ela era boa colega e boa companhia para o pernoite. Seria bom eu me juntar a ela no voo. Mas na última hora chegou o titular do voo.
Fiquei decepcionada! Me despedi da Gisela: "Poxa, ainda não será dessa vez que eu vou conhecer Abidjan!" E ela: "Que pena! Queria que você fosse! Fica pra próxima!" Foi a última vez que nos falamos.
No dia seguinte fui fazer meu voo programado. No dia 3 de Janeiro pousei de volta no Galeão por volta de dez da manhã. O despachante que recebeu nosso voo, mal abriu a porta e ao invés de Bom Dia soltou:"Vocês souberam do Abidjan?"
E a gente não sabia de nada. Chegávamos de Belém depois de três horas de voo. Ele, ao perceber que não sabíamos ainda, tentou dourar a pílula: "O avião sumiu!"
Como assim sumiu? O que aconteceu? O que foi que houve? Alguém morreu? Mas depois da gafe inicial, nosso colega do aeroporto ficou evasivo e reticente.
Fomos para o DO. Todos ali com cara de enterro. O avião não tinha sumido. Tinha sofrido um grave acidente na decolagem de Abidjan quando voltava para o Brasil. Caiu a poucos quilômetros do aeroporto e explodiu. Lá estava a lista de tripulantes do voo fatídico. Sem acreditar ainda no que tinha acontecido eu fui lendo. Dentre eles estava minha amiga Gisela. A baiana Celina de apenas dezoito anos, que tinha tanta saudade do irmão pequeno que andava com a foto dele na bolsa, e que queria tanto ser comissária que tinha dito à mãe dela que se ela morresse agora morreria feliz. O comandante Carneiro, conhecido como Carneirinho, brincalhão e querido de todo mundo. O rapaz cuja irmã também era comissária. O outro que trabalhava fazendo a escala dos comissários e que tinha passado para o voo há pouco tempo. E todos os demais. Todos mortos!
Fui para casa em estado de choque. Tinha me dado conta da minha própria vulnerabilidade humana. Percebi que não somos nada. Que a vida é uma passagem. Que o presente tem esse nome porque cada dia que estamos vivos é um presente. Que ninguém pode viver o destino de outro.
Lembrei-me de um conto que eu já tinha lido há anos, mas que naquele momento fazia todo sentido. Encontro em Samarra de Somerset Maugham:
Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo ao mercado comprar provisões. Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo. Disse: “Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e ao me virar vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra, lá a Morte certamente não me encontrará”.
.
O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi. Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”
O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi. Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”
.
“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.
Algumas observações:
“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.
Algumas observações:
- A comissária novinha para quem eu dava instrução pediu demissão depois disso. Tinha um mês de voo.
- Nunca pernoitei em Abidjan
- Os nomes das comissárias que morreram no acidente foram trocados.
- Se alguém tiver interesse em saber mais detalhes sobre o acidente com o Boeig 707 PP-VJK,inclusive a transcrição da caixa preta, aqui vai um link
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Samba do avião
Toda vez que eu pousava no Rio de manhã cedo eu me lembrava dessa música! E sempre me emocionava!
Não importava de onde eu estava vindo, se eu já estava estourada de cansaço depois de uma noite inteira ralando, nem se o voo não tinha sido muito bom. A emoção continuou. Mesmo depois de anos o pouso no Rio sempre foi um momento especial.
É como uma criança que pede para a mãe contar sempre a mesma história inúmeras vezes, e em todas as vezes a empolgação é igual.
Apesar da letra da música falar do aeroporto do Galeão, ela foi inspirada em um pouso no Santos Dumont. Quem me contou foi o próprio maestro Tom Jobim, a bordo de um voo para Brasília, mais ou menos um ano antes da sua morte.
O avião tinha poucos passageiros, e ele veio conversar com a tripulação. Muito simpático e educado, perguntou-me de onde eu era. Eu falei que era do Rio e mencionei o Samba do Avião que sempre me vinha na lembrança a cada pouso na cidade.
De fato o pouso no Santos Dumont é mais bonito panoramicamente falando. Mas nós dois concordamos que a cidade vista do alto é linda de qualquer jeito!
Quem já teve oportunidade de pousar em um aeroporto carioca sabe do que eu estou falando. Quem tem a cidade maravilhosa como lar sabe mais ainda. E fica inchado de orgulho! Como se fosse o responsável pelas belezas naturais do Rio. Vai ser bonito assim lá... rsrs
Água brilhando, olha a pista chegando, e vamos nós..... pousar!
Não importava de onde eu estava vindo, se eu já estava estourada de cansaço depois de uma noite inteira ralando, nem se o voo não tinha sido muito bom. A emoção continuou. Mesmo depois de anos o pouso no Rio sempre foi um momento especial.
É como uma criança que pede para a mãe contar sempre a mesma história inúmeras vezes, e em todas as vezes a empolgação é igual.
Apesar da letra da música falar do aeroporto do Galeão, ela foi inspirada em um pouso no Santos Dumont. Quem me contou foi o próprio maestro Tom Jobim, a bordo de um voo para Brasília, mais ou menos um ano antes da sua morte.
O avião tinha poucos passageiros, e ele veio conversar com a tripulação. Muito simpático e educado, perguntou-me de onde eu era. Eu falei que era do Rio e mencionei o Samba do Avião que sempre me vinha na lembrança a cada pouso na cidade.
De fato o pouso no Santos Dumont é mais bonito panoramicamente falando. Mas nós dois concordamos que a cidade vista do alto é linda de qualquer jeito!
Quem já teve oportunidade de pousar em um aeroporto carioca sabe do que eu estou falando. Quem tem a cidade maravilhosa como lar sabe mais ainda. E fica inchado de orgulho! Como se fosse o responsável pelas belezas naturais do Rio. Vai ser bonito assim lá... rsrs
Água brilhando, olha a pista chegando, e vamos nós..... pousar!
domingo, 18 de dezembro de 2011
Natal em Amsterdam
Amsterdam é um dos meus lugares favoritos no mundo. Um dos lugares que eu quero voltar antes de morrer.
A cidade é pequena e linda! O povo é simpático, desestressado e receptivo com os turistas. Bem diferente de outros povos da Europa. Os holandeses tem um calor humano que lembra de certa maneira nós aqui dos trópicos.Quando saiu minha escala e eu vi que ia passar o Natal em Amsterdam, com direito a dois dias inativos eu fiquei feliz!
Na empresa em que
eu trabalhava, o tripulante que voava no
Natal ou Ano Novo tinha direito a levar um dependente consigo. Podia ser
marido, mulher ou filho. Mas os solteiros e sem filhos não podiam levar
ninguém.
Na época eu era
solteira, então juntei-me aos outros desgarrados. Éramos uns quatro ou cinco solteiros, os
demais estavam acompanhados.
Na noite de Natal,
resolvemos ir ao Bulldog Cafe para relaxar,
tomar umas cervejas e ficar chapados.
Na Holanda o
consumo de maconha e haxixe é liberado. Em Amsterdam existem vários bares ou
cafés que vendem o produto, com cardápio e tudo, além de disponibilizar os
apetrechos para a confecção do baseado. A gente consome lá mesmo. Nas
ruas não é permitido assim como em lojas e outros estabelecimentos.![]() |
| The Bulldog Cafe |
Ficamos lá numa
boa curtindo nosso Natal doidão até umas onze da noite, quando resolvemos
voltar para o hotel. Compramos algo para comer, o vinho já tinha sido
providenciado. Combinamos a reunião no quarto da Bebel, que era maior. A
intenção era comer, tomar o vinho e capotar cada um no seu quarto.
Ao chegar à
recepção, um gentil funcionário nos informou que o hotel estava oferecendo uma
ceia de cortesia para a tripulação, e que todos já estavam reunidos no salão.
Só faltava a gente.
Que cilada! Nem
dava para fugir! Lá fomos nós, com os olhos vermelhos e uma vontade danada de
rir, que logo se transformou em vontade de chorar quando vimos todo mundo
sentadinho e comportadinho nas mesas colocadas em semicírculo.
Os garçons, cada um
com sua tromba se arrastando pelo chão, davam a impressão de que foram
pegos tão de surpresa quanto nós para a tal ceia de cortesia. E que
assim como nós gostariam de estar a anos luz dali!
Sentamos todos, com
um sorriso amarelo na cara, a boca seca, sem saber o que dizer, à espera
de um milagre de Natal. Um apagão, um alarme falso de incêndio, uma poção
mágica de invisibilidade, enfim qualquer coisa que nos desse a chance de
escapar.
Como nada está tão
ruim que não possa ficar pior, a mulher de um dos co-pilotos resolveu
incorporar a primeira-dama (apesar de ela ser a segunda-dama) e para quebrar o gelo propôs que cada um de nós
dissesse algumas palavras.
É nessas horas que a gente compreende verdadeiramente a expressão: de boas intenções o inferno está cheio!
E ela mesma, toda
se achando, começou o discurso de abobrinhas, na certa para mais tarde se gabar para o marido: "Viu só como eu falei bonito, benhê?" Disse que estava “muito feliz por estar ali, que o Natal era um momento de confraternização, que isso, que
aquilo…”
Eu olhava para os
meus amigos e eles para mim, imaginando o que fazer. Gritar até ficar rouca?
Mandar a “primeira-dama” se situar e parar de falar besteira? Desmaiar?
Pegar a faca em cima da mesa e cortar os pulsos?
Quando chegou na
minha vez de dizer algumas palavras eu falei mais ou menos assim: “Olha, vocês
são muito gentis e tal, mas eu não curto muito essa coisa de comemoração, nem de discurso. Na verdade eu nem queria dizer nada porque
eu não tenho nada interessante para dizer.”
Alguns segundos de
silêncio. Veio a comida, que por sinal deixava a desejar. Os garçons
que nos serviam com uma má vontade gritante contribuíram ainda mais para tornar
a ceia de Natal uma verdadeira tortura.
Desejei boa noite
assim que pude faze-lo sem parecer falta de educação, e fui dormir.
No outro dia era
Natal! Como não tinha almoço comemorativo, nem discursos, nem candidatas a primeira-dama, resolvemos nos dar de presente o aluguel de umas bicicletas, um passeio na Leidseplein e uma visita ao Bulldog Café.
![]() |
| Leidseplein |
Stoned again…
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| Laricas |
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Natal em Belém
Não, não é a cidade onde
Jesus nasceu. É Belém do Pará mesmo!
Comecei a voar no mês de Dezembro, depois de três
meses de curso.
Como em aviação antiguidade é posto, eu como “carne nova” nem
tive a opção de folgar nas festas de fim de ano.
O primeiro mês de um novo trabalho é sempre
estimulante! Ainda mais se o trabalho é viajar pelo Brasil afora conhecendo
novos lugares e tendo contato com outras culturas.
Quando peguei minha primeira escala de voo, tudo
era novo para mim! Pela programação ali impressa, eu estaria de sobreaviso no dia 23, iria para Porto Alegre no dia 24 em um voo pinga-pinga, onde passaria a noite de Natal, e no dia 25 de manhã iria a Buenos Aires, Montevideo,
novamente Porto Alegre, São Paulo e finalmente Rio, chegando tarde da
noite, numa programação que era conhecida como “Conheça a América do Sul em uma
tarde”.
Na véspera do meu voo natalino, a programação
mudou. Fui acionada no sobreaviso para o voo para Belém. Ao invés do sul eu passaria a noite de Natal no norte, em Belém do Pará. Era um voo direto, de pouco mais de três horas, chegando em Belém pouco antes da meia noite. No dia seguinte (24) ficava inativo e dia 25 de manhã cedo retornava ao Rio, também direto.
Por mim tudo bem. Quem está na chuva é para
se molhar.
Ao me apresentar para o voo, o instrutor que me acompanhava me disse feliz da vida: “A gente se deu bem com a troca de programação! O voo chega de volta ao Rio às 10 da manhã do dia 25. Ainda dá pra
pegar o almoço de Natal!”
Quando fomos assinar a folha de apresentação (naqueles tempos jurássicos não tinha computador para passar cartão), uma surpresa. Toda a tripulação tinha sido reprogramada. Ao chegar em Belém prosseguiríamos no mesmo avião para Caiena, depois Paramaribo e retornaríamos a Belém para pernoitar.
Hein??? Onde???
Para quem não se lembra dos tempos de escola, e de fato a gente até se esquece desses nossos vizinhos, Caiena é a capital da Guiana Francesa, e Paramaribo a capital do Suriname, antiga colônia holandesa.
Notei que a tripulação ficou contrariada. O comandante tentou argumentar, os demais comissários também. Mas eu, por ser nova na área não compreendi bem o porque. Pensei com meus botões que até que seria interessante pousar em dois países desconhecidos numa mesma noite.
Quando fomos assinar a folha de apresentação (naqueles tempos jurássicos não tinha computador para passar cartão), uma surpresa. Toda a tripulação tinha sido reprogramada. Ao chegar em Belém prosseguiríamos no mesmo avião para Caiena, depois Paramaribo e retornaríamos a Belém para pernoitar.
Hein??? Onde???
Para quem não se lembra dos tempos de escola, e de fato a gente até se esquece desses nossos vizinhos, Caiena é a capital da Guiana Francesa, e Paramaribo a capital do Suriname, antiga colônia holandesa.
Notei que a tripulação ficou contrariada. O comandante tentou argumentar, os demais comissários também. Mas eu, por ser nova na área não compreendi bem o porque. Pensei com meus botões que até que seria interessante pousar em dois países desconhecidos numa mesma noite.
Chegamos em Belém às onze e meia da noite. Foi o tempo de desembarcar os passageiros que vieram do Rio e embarcar os que iam para Caiena e Paramaribo. O avião estava lotado e eu sem entender o que tanta gente ia fazer naquele fim de mundo nas véperas do Natal. Havia passageiro de toda a espécie.Tinha indianos vestidos a caráter que reclamavam porque não tinham refeições vegetarianas para eles, tinha alguns com fortes traços indígenas, tinha africanos legítimos, e não afro-descendentes, tinha europeus falando francês e inglês, tinha até brasileiros!
Pousamos em Caiena, alguns passageiros ficaram por lá e a maioria seguiu para Paramaribo. Chegando lá, todos desembarcaram e entraram outros passageiros, novinhos em folha, com a mesma variedade étnica.
A essa altura deviam ser umas quatro horas da manhã, e a tripulação cantarolava a Melô do Marinheiro dos Paralamas do Sucesso com uma pequena modificação: "Entrei de gaiato no avião. Entrei, entrei, entrei pelo cano."
Pousamos de volta em Belém por volta das seis da manhã do dia 24. Nem preciso dizer que eu estava no bagaço... Mas todo mundo tentava entrar no clima, e combinamos para mais tarde uma reunião no quarto de alguém para passarmos juntos a noite de Natal.
Como o hotel não dava ceia de cortesia (tripulante adora cortesia!), e na noite de Natal seria dificil encontrar um lugar legal, acabamos ficando no quarto de alguém (não me lembro quem), comendo amendoim e bebendo cerveja.
No dia seguinte pela manhã, já dentro do avião com passageiros embarcados, um barulho estranho em uma das turbinas.
Pousamos em Caiena, alguns passageiros ficaram por lá e a maioria seguiu para Paramaribo. Chegando lá, todos desembarcaram e entraram outros passageiros, novinhos em folha, com a mesma variedade étnica.
A essa altura deviam ser umas quatro horas da manhã, e a tripulação cantarolava a Melô do Marinheiro dos Paralamas do Sucesso com uma pequena modificação: "Entrei de gaiato no avião. Entrei, entrei, entrei pelo cano."
Pousamos de volta em Belém por volta das seis da manhã do dia 24. Nem preciso dizer que eu estava no bagaço... Mas todo mundo tentava entrar no clima, e combinamos para mais tarde uma reunião no quarto de alguém para passarmos juntos a noite de Natal.
Como o hotel não dava ceia de cortesia (tripulante adora cortesia!), e na noite de Natal seria dificil encontrar um lugar legal, acabamos ficando no quarto de alguém (não me lembro quem), comendo amendoim e bebendo cerveja.
No dia seguinte pela manhã, já dentro do avião com passageiros embarcados, um barulho estranho em uma das turbinas.
Uma colega mais experiente passa por mim e sinaliza
com o polegar para baixo. Ferrou!
Mais uma tentativa e o ruído da turbina fica ainda
mais estranho. Estranhíssimo, pensava eu sentada no jump seat. Ao meu lado uma outra colega, gaúcha, que tinha
planos de pegar o voo para Porto Alegre assim que chegássemos no Rio, começou a
chorar. Estava com a mala cheia de presentes para a família, o pai faria um
belo de um churrasco.
E chama os mecânicos para ver qual era o
problema, e testa a turbina de novo. Ainda não foi dessa vez. E mexe
daqui, mexe dali, tem que trocar uma peça, mas tem que esperar a peça chegar de
Manaus…
Resumindo: Pousamos no Rio às quatro da tarde, seis
horas de atraso. Almoço de Natal nem pensar! Só no próximo ano.
Ou não…
Obs. Meus queridos leitores devem estar pensando que eu devo ser uma pessoa muito azarada, pois todas as minhas "primeiras vezes" na aviação foram problemáticas, vide Meu primeiro voo internacional. Realmente eu já parei para pensar se isso é uma questão cármica, se Deus gosta de me botar à prova para me testar ou se é um mero acaso. Não cheguei a nenhuma conclusão definitiva. Mas agradeço a Ele pelos 20 anos sem sofrer nenhum acidente ou incidente sério e pelo fato de nunca ter precisado colocar minha vida em risco, e nem a vida de outras pessoas. Então considero esses contratempos que me ocorreram como um aprendizado para me tornar uma pessoa melhor e mais tolerante. Se eu consegui, isso eu não sei!
Obs. Meus queridos leitores devem estar pensando que eu devo ser uma pessoa muito azarada, pois todas as minhas "primeiras vezes" na aviação foram problemáticas, vide Meu primeiro voo internacional. Realmente eu já parei para pensar se isso é uma questão cármica, se Deus gosta de me botar à prova para me testar ou se é um mero acaso. Não cheguei a nenhuma conclusão definitiva. Mas agradeço a Ele pelos 20 anos sem sofrer nenhum acidente ou incidente sério e pelo fato de nunca ter precisado colocar minha vida em risco, e nem a vida de outras pessoas. Então considero esses contratempos que me ocorreram como um aprendizado para me tornar uma pessoa melhor e mais tolerante. Se eu consegui, isso eu não sei!
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Brincadeirinha
Era a primeira vez que Evelise atravessava o Atlântico. No avião, rumo à Africa (não me lembro se para Abidjan ou Maputo), ela dormia sentada nos assentos reservados à tripulação.
Sobrevoando o oceano no meio da madrugada os passageiros também dormiam e o avião estava na penumbra para que todos pudessem descansar melhor e não ficassem com vontade de perturbar os comissários.
Enquanto isso eu e Cris estávamos de plantão na galley traseira. Sem nada para fazer já que os passageiros estavam dormindo, deixamos a imaginação fluir e tivemos uma idéia. Por que a gente não dava as boas vindas à Evelise em seu primeiro voo transatlântico com uma brincadeira engraçada?
Pegamos três coletes salva-vidas, vestimos dois e com o terceiro na mão fomos acordar-la:
"-Evelise! Acorda Evelise!"
Ela abriu os olhos meio dormindo e olhou para nós duas vestidas com os coletes sem entender nada.
"- Você tem que vestir seu colete agora. É uma emergência! O comandante avisou que a gente vai pousar no mar!"
Ela levantou num pulo, branca feito papel:
"- Ai, meu Deus! E agora? Eu tenho duas filhas! E a minha mãe? O que será dela? Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! As minhas filhas!"
E a gente tirando rapidamente os coletes, sem saber se ficava arrependida ou se caía na gargalhada:
"- Calma, Evelise! Calma! É brincadeira! É mentira! A gente não vai pousar no mar! Está tudo bem!"
Depois de muito tempo felizmente ela conseguiu se acalmar, pois já tinha passageiro acordando com os gritos e olhando para nós desconfiado.
"- Não foi nada não, senhor! É que ela machucou a cabeça ao se levantar muito rápido. Está tudo bem."
Evelise passou o resto do voo sem nos dirigir a palavra. No lugar dela talvez eu fizesse o mesmo. Mas o tempo passou e toda vez que a gente se encontrava ficava relembrando o episódio e se escangalhando de tanto rir.
De duas coisas eu tenho certeza. A recepção que nós demos a ela pode não ter sido muito tradicional, mas foi muito mais calorosa do que a que deram a mim no meu primeiro voo internacional. E ambas as recepções, por motivos totalmente diferentes, foram inesquecíveis!
quarta-feira, 6 de julho de 2011
A embaixada
Um avião brasileiro em solo de país estrangeiro é considerado pelos brasileiros que o utilizam como território do Brasil, mesmo que para efeitos legais aeronaves privadas não possuam extraterritorialidade. Mas nesse caso, como diz a canção de Milton Nascimento: "O que importa é ouvir a voz que vem do coração."
Então dentro do avião é território brasileiro e pronto!
Não foram poucas as vezes que escutei de passageiros embarcando coisas do tipo: "Agora sim, eu sinto que estou em casa!" ou "Que bom escutar vocês falando português!"
Essas frases eu ouvia tanto de turistas que acabavam de retornar de excursão de uma semana a Miami, saudosos do Guaraná e "esquecidos" da língua portuguesa quanto daqueles que por algum motivo deixaram a terra natal para viver em outros países e retornavam depois de muito tempo, em visita ou definitivamente.
Muitas vezes também ouvi: "A Varig é como se fosse uma embaixada!"
Falo da Varig porque durante muitos anos foi a única companhia aérea brasileira a voar para o exterior. A ditadura militar deu-lhe o monopólio, que foi quebrado anos depois, mas mesmo assim hoje o monopólio extra-oficial ainda persiste. Uma pena. Gostaria de ver mais embaixadas com asas pelo mundo.
Certa vez eu estava recepcionando passageiros a bordo no aeroporto de Heathrow em Londres quando uma moça embarcou. Devia ter uns vinte e cinco anos mais ou menos. Estava pálida, e ao embarcar seus olhos se encheram de lágrimas e ela disse: "Graças a Deus eu estou aqui!" E suas pernas cederam.
Conseguimos leva-la para um canto, oferecemos água mas ela disse que não podia beber. Aliás não podia engolir quase nada porque tinha tido um derrame. E foi contando sua história.
Tinha vindo para a Inglaterra tentar a vida como tantos outros. Seu namorado já vivia em Londres. Ela conseguiu alugar um quarto na casa de uma senhora. Como estava ilegal só conseguia sub-empregos, mas ia vivendo mesmo assim.
Até que o namorado veio embora. Ela foi ficando até que teve o derrame. Como imigrante ilegal não tinha direito ao sistema de saúde britânico, e não podia mais trabalhar.
Não sei por quanto tempo ela permaneceu nessa situação, sem trabalho e sem assistência, até que um dia sua landlady, certamente com medo dela morrer em sua casa, das despesas que isso acarretaria e das explicações que teria que dar ao serviço de imigração, procurou saber os horários de voos da Varig para o Brasil, colocou-a dentro do carro e desovou-a em Heathrow.
Não fiquei sabendo se tal derrame era consequência de uma patologia mais séria, mas naquele momento não cabia especular. A moça estava mal, estava sozinha, estava sem se alimentar e precisava voltar para casa.
Fomos falar com o comandante que com bom senso e raciocínio prático decidiu: "Se ela morrer a bordo pelo menos estaremos levando-a para casa. Se ficar aqui vai morrer como indigente. Deixem ela ficar."
O bilhete dela era da classe econômica, mas a Executiva tinha assentos vazios. O comandante liberou para que nós a puséssemos lá, num assento próximo da galley para darmos a assistência necessária.
Fizemos soro caseiro e uma escala de revezamento para dar-lhe o soro aos poucos com uma colher, pois ela mal podia engolir. E durante as doze horas de voo nos revezamos para cuidar dela, que por sorte foi melhorando.
Conseguimos traze-la a salvo para seu país. Pousamos em São Paulo e ela desembarcou agradecendo muito pelos cuidados e atenção.
Não me lembro mais seu nome. Mas a sensação boa de missão cumprida eu nunca esquecerei. E sei que ela não esquecerá essa viagem, assim como eu e meus colegas que participaram da mesma missão.
Espero que ela esteja bem. Assim como espero que outros brasileiros expatriados, deportados ou exilados de sua terra natal por qualquer motivo continuem tendo uma boa acolhida ao voltarem para casa. Sem perguntas, sem cobranças e sem julgamentos.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Meu primeiro voo internacional
Ou: Eu também uso pasta Crest!
O momento de começar a fazer voos internacionais é de grande importância na vida de um comissário. Como eu já comentei no post A porta da felicidade, é o sonho de todos, o ápice da carreira. Comissários de voos internacionais fazem parte de outra casta, e todo comissário sonha com o dia em que fará parte dela.
Após três anos fazendo voos domésticos, dois deles como Chefe de Equipe, tinha chegado a minha vez de ser promovida para os voos internacionais! Que alegria! Que felicidade!
Finalmente teria na minha geladeira cervejas importadas, queijos e outras guloseimas que por aqui não se encontram. Poderia ter acesso a um monte de bugigangas eletrônicas, algumas sem utilidade aparente. E teria no armário do meu banheiro a pasta de dentes Crest!
Se ainda hoje é difícil encontrar coisas importadas a um bom preço, imaginem no final dos anos oitenta, quando as importações não eram liberadas e muito pouca coisa podia se encontrar em terras tupiniquins. E o que se encontrava era por um preço absurdo!
Todo comissário internacional que se prezasse usava pasta Crest, comprada na América. Era um diferencial. Hoje se encontra Crest na drogaria mais próxima da sua casa, mas naquela época quem usava era porque viajava para o exterior com frequencia e tinha acesso fácil, e isso era sinal de status.
Fiz o curso de habilitação da aeronave para tirar o novo CHT, tive uma breve aula da sequencia de serviço no novo avião wide-body e pronto.
Saiu a minha escala. Primeiro voo: Miami! Nunca tinha estado em Miami! Oba!!! Paraíso das compras! Da pasta Crest! Dos eletrônicos! Que maravilha! E para completar minha felicidade, uma amiga que morava em Miami e trabalhava em navios que fazem cruzeiro pelas Bahamas tinha me conseguido um cruzeiro de um dia inteiramente grátis! Saía de manhã cedo e voltava à noite, parando em duas ilhas.
Chegou o grande dia. Já no avião me apresentei ao Chefe de Equipe e disse que aquele era meu primeiro voo no novo equipamento.
Aeronaves wide-bodies costumam ser divididas em três classes: Primeira Classe, Classe Executiva e Classe Econômica.
Os neófitos começam ralando na Econômica, que na época era conhecida como Pavilhão Nove (alusão à rebelião de presos no pavilhão nove do presídio de Carandiru em São Paulo), Vila Socó (por causa de alguma novela que tinha uma comunidade pobre com esse nome) ou Umbral (quem viu o filme Nosso Lar sabe do que se trata).
Hoje certamente já cunharam nomes mais criativos, porque se há alguma coisa que não falta aos comissários é imaginação fértil.
Além do Chefe da Equipe, tinha também os Supervisores da Primeira Classe, da Executiva e da Econômica.
Ao fazer o briefing, o chefe me recomendou à supervisora da econômica dizendo que era meu primeiro voo.
A supervisora revirou os olhos e fez aquela expressão de "Ai, que saco! Vai me dar trabalho!" Foi nesse momento que eu percebi que minha estréia na aviação internacional não seria tão agradável quanto eu gostaria.
Como boa profissional que sempre fui, fingi não perceber a grosseria daquela senhora gorda e de meia idade e fui me apresentar aos demais colegas. Ao me apresentar aos colegas da Primeira Classe, nova patada. A comissária que por lá reinava me olhou com se eu fosse um nada, e meio que me mandou voltar para o meu lugar.
Comissários da Primeira Classe e da Executiva constituem uma sub-casta dentro da casta dos que voam internacional. Como se sabe, antiguidade é posto em aviação civil, e estes profissionais são os mais antigos, os que tem mais tempo de voo, e alguns se sentem como vacas sagradas.
Engoli a grosseria da vaca e atribuí-a ao fato de eu ser "carne nova", jovem e de boa aparência, enquanto que ela era um tribufú.
Os demais colegas da econômica, todos com cara de entediados, me deixaram super "à vontade": "Você vai olhando o serviço e aprendendo." Oi???
Veja bem: Eu não queria nenhum tapete vermelho! Queria apenas que eles fossem um pouco mais receptivos, que compreendessem minha insegurança porque afinal todos eles passaram por isso. Que tivessem um pouco mais de empatia.
Terminado o embarque com o avião lotado até o talo, afinal era Dezembro, decolamos e começou o serviço. Eu que já estava nervosa, depois da recepção "calorosa" fiquei pior ainda. O trolley das bebidas era diferente do que eu estava acostumada. Parecia que eu estava empacada naquele corredor enorme e não conseguia sair do lugar.
A supervisora balofa cheia de "Ai, meu Deus..." e de "Anda logo!" E como que para piorar minha desgraça, cada passageiro resolvia me pedir três bebidas ao mesmo tempo.
Quando eu precisava ir na Classe Executiva solicitar alguma coisa, a baranga da primeira classe se materializava por lá, sempre com alguma patada na ponta da língua: "Você não pode passar por aqui!" "Você não pode usar esse banheiro!" "O que você está fazendo aqui? Volte para o seu lugar!"
Se eu não estivesse tão ansiosa para chegar, ficaria mais chateada do que fiquei. Mas resolvi deixar passar.
Aterrissamos em Miami de manhã bem cedo, o dia estava amanhecendo. Ao chegar ao hotel, tomei banho, troquei de roupa e fui encontrar minha amiga no porto para fazer o cruzeiro, dando graças a Deus por não precisar depender da companhia daqueles espíritos sem luz.
Cheguei de volta quase duas da manhã, passando antes em Coconut Grove com minha amiga para tomar umas cervejas. Estava tão excitada com as novas emoções que me esqueci de ficar cansada.
Na manhã seguinte encontrei com uma colega que estava saindo para fazer compras e me levou com ela para conhecer as lojas. Fiz o reconhecimento e comprei algumas coisas (pasta Crest inclusive rsrs).
Voltamos ao hotel, descansei um pouco e já era hora de me arrumar para o voo da volta. Esperava que a volta fosse melhor do que a ida, mas não foi...
O voo estava lotado. A supervisora continuou revirando os olhos e pegando no meu pé. A baranga da Primeira Classe não podia me ver que soltava alguma coisa. Os outros colegas continuavam com o ar blasè.
Lá pelas tantas, ao ser acordada para o serviço de café da manhã, a supervisora baleia instruiu a mim e aos outros para nos arrumarmos no banheiro da primeira classe que era menos concorrido, porque o voo tinha adiantado e chegaríamos meia hora antes do previsto. Então o tempo para fazer o serviço tinha encurtado.
Banheiro da Primeira Classe??? Ai, meu Deus! A baranga não ia me deixar em paz! Mas eu obedeci e fui. Para não ser acusada de estar demorando eu nem escovei os dentes. Arrumei rapidamente o cabelo, passei um batom e saí. Adivinhem quem estava me esperando na saída? Ela mesma! O tribufú da Primeira Classe, que para não deixar passar em branco me disse: "Anda logo porque o serviço na Econômica já está quase terminando!"
Aí já era demais! Chamei-a num canto e disse-lhe ao pé do ouvido: "Eu também não fui com a sua cara..." Sem esperar resposta,virei as costas e fui!
Pousamos finalmente no Rio, e eu agradecia a Deus por não ter tripulação fixa, e que a chance de se reunir tantas pessoas nefastas num mesmo voo era remota.
Um dos colegas da econômica resolveu ser simpático (um pouco tarde, né...) e me perguntou: "E então? Gostou do seu primeiro voo internacional?"
E eu muito sinceramente respondi: "Não. Mas eu tenho certeza que os outros serão melhores!"
E felizmente eu estava certa!
Obs. Para melhor entendimento de algumas palavras usadas no post, sugiro a leitura da página Pequeno Glossário da Aviação Comercial
O momento de começar a fazer voos internacionais é de grande importância na vida de um comissário. Como eu já comentei no post A porta da felicidade, é o sonho de todos, o ápice da carreira. Comissários de voos internacionais fazem parte de outra casta, e todo comissário sonha com o dia em que fará parte dela.
Após três anos fazendo voos domésticos, dois deles como Chefe de Equipe, tinha chegado a minha vez de ser promovida para os voos internacionais! Que alegria! Que felicidade!
Finalmente teria na minha geladeira cervejas importadas, queijos e outras guloseimas que por aqui não se encontram. Poderia ter acesso a um monte de bugigangas eletrônicas, algumas sem utilidade aparente. E teria no armário do meu banheiro a pasta de dentes Crest!
Todo comissário internacional que se prezasse usava pasta Crest, comprada na América. Era um diferencial. Hoje se encontra Crest na drogaria mais próxima da sua casa, mas naquela época quem usava era porque viajava para o exterior com frequencia e tinha acesso fácil, e isso era sinal de status.
Saiu a minha escala. Primeiro voo: Miami! Nunca tinha estado em Miami! Oba!!! Paraíso das compras! Da pasta Crest! Dos eletrônicos! Que maravilha! E para completar minha felicidade, uma amiga que morava em Miami e trabalhava em navios que fazem cruzeiro pelas Bahamas tinha me conseguido um cruzeiro de um dia inteiramente grátis! Saía de manhã cedo e voltava à noite, parando em duas ilhas.
Chegou o grande dia. Já no avião me apresentei ao Chefe de Equipe e disse que aquele era meu primeiro voo no novo equipamento.
Aeronaves wide-bodies costumam ser divididas em três classes: Primeira Classe, Classe Executiva e Classe Econômica.
Os neófitos começam ralando na Econômica, que na época era conhecida como Pavilhão Nove (alusão à rebelião de presos no pavilhão nove do presídio de Carandiru em São Paulo), Vila Socó (por causa de alguma novela que tinha uma comunidade pobre com esse nome) ou Umbral (quem viu o filme Nosso Lar sabe do que se trata).
Hoje certamente já cunharam nomes mais criativos, porque se há alguma coisa que não falta aos comissários é imaginação fértil.
Além do Chefe da Equipe, tinha também os Supervisores da Primeira Classe, da Executiva e da Econômica.
Ao fazer o briefing, o chefe me recomendou à supervisora da econômica dizendo que era meu primeiro voo.
A supervisora revirou os olhos e fez aquela expressão de "Ai, que saco! Vai me dar trabalho!" Foi nesse momento que eu percebi que minha estréia na aviação internacional não seria tão agradável quanto eu gostaria.
Como boa profissional que sempre fui, fingi não perceber a grosseria daquela senhora gorda e de meia idade e fui me apresentar aos demais colegas. Ao me apresentar aos colegas da Primeira Classe, nova patada. A comissária que por lá reinava me olhou com se eu fosse um nada, e meio que me mandou voltar para o meu lugar.
Comissários da Primeira Classe e da Executiva constituem uma sub-casta dentro da casta dos que voam internacional. Como se sabe, antiguidade é posto em aviação civil, e estes profissionais são os mais antigos, os que tem mais tempo de voo, e alguns se sentem como vacas sagradas.
Engoli a grosseria da vaca e atribuí-a ao fato de eu ser "carne nova", jovem e de boa aparência, enquanto que ela era um tribufú.
Os demais colegas da econômica, todos com cara de entediados, me deixaram super "à vontade": "Você vai olhando o serviço e aprendendo." Oi???
Veja bem: Eu não queria nenhum tapete vermelho! Queria apenas que eles fossem um pouco mais receptivos, que compreendessem minha insegurança porque afinal todos eles passaram por isso. Que tivessem um pouco mais de empatia.
Terminado o embarque com o avião lotado até o talo, afinal era Dezembro, decolamos e começou o serviço. Eu que já estava nervosa, depois da recepção "calorosa" fiquei pior ainda. O trolley das bebidas era diferente do que eu estava acostumada. Parecia que eu estava empacada naquele corredor enorme e não conseguia sair do lugar.
A supervisora balofa cheia de "Ai, meu Deus..." e de "Anda logo!" E como que para piorar minha desgraça, cada passageiro resolvia me pedir três bebidas ao mesmo tempo.
Quando eu precisava ir na Classe Executiva solicitar alguma coisa, a baranga da primeira classe se materializava por lá, sempre com alguma patada na ponta da língua: "Você não pode passar por aqui!" "Você não pode usar esse banheiro!" "O que você está fazendo aqui? Volte para o seu lugar!"
Se eu não estivesse tão ansiosa para chegar, ficaria mais chateada do que fiquei. Mas resolvi deixar passar.
Aterrissamos em Miami de manhã bem cedo, o dia estava amanhecendo. Ao chegar ao hotel, tomei banho, troquei de roupa e fui encontrar minha amiga no porto para fazer o cruzeiro, dando graças a Deus por não precisar depender da companhia daqueles espíritos sem luz.
Cheguei de volta quase duas da manhã, passando antes em Coconut Grove com minha amiga para tomar umas cervejas. Estava tão excitada com as novas emoções que me esqueci de ficar cansada.
Na manhã seguinte encontrei com uma colega que estava saindo para fazer compras e me levou com ela para conhecer as lojas. Fiz o reconhecimento e comprei algumas coisas (pasta Crest inclusive rsrs).
Voltamos ao hotel, descansei um pouco e já era hora de me arrumar para o voo da volta. Esperava que a volta fosse melhor do que a ida, mas não foi...
O voo estava lotado. A supervisora continuou revirando os olhos e pegando no meu pé. A baranga da Primeira Classe não podia me ver que soltava alguma coisa. Os outros colegas continuavam com o ar blasè.
Lá pelas tantas, ao ser acordada para o serviço de café da manhã, a supervisora baleia instruiu a mim e aos outros para nos arrumarmos no banheiro da primeira classe que era menos concorrido, porque o voo tinha adiantado e chegaríamos meia hora antes do previsto. Então o tempo para fazer o serviço tinha encurtado.
Banheiro da Primeira Classe??? Ai, meu Deus! A baranga não ia me deixar em paz! Mas eu obedeci e fui. Para não ser acusada de estar demorando eu nem escovei os dentes. Arrumei rapidamente o cabelo, passei um batom e saí. Adivinhem quem estava me esperando na saída? Ela mesma! O tribufú da Primeira Classe, que para não deixar passar em branco me disse: "Anda logo porque o serviço na Econômica já está quase terminando!"
Aí já era demais! Chamei-a num canto e disse-lhe ao pé do ouvido: "Eu também não fui com a sua cara..." Sem esperar resposta,virei as costas e fui!
Pousamos finalmente no Rio, e eu agradecia a Deus por não ter tripulação fixa, e que a chance de se reunir tantas pessoas nefastas num mesmo voo era remota.
Um dos colegas da econômica resolveu ser simpático (um pouco tarde, né...) e me perguntou: "E então? Gostou do seu primeiro voo internacional?"
E eu muito sinceramente respondi: "Não. Mas eu tenho certeza que os outros serão melhores!"
E felizmente eu estava certa!
Obs. Para melhor entendimento de algumas palavras usadas no post, sugiro a leitura da página Pequeno Glossário da Aviação Comercial
sábado, 4 de junho de 2011
Como tudo começou
Eu trabalhava nas lojas Duty Free do aeroporto. Emprego que arrumei para ficar mais próxima da aviação numa época ainda sem as facilidades da internet.
Eram cinco e meia de uma madrugada fria. Meu primeiro dia de trabalho naquele ambiente mágico de chegadas e partidas.
Uma colega mais antiga me chamou para ir junto com ela entregar mercadorias compradas pelos tripulantes de um avião da Ibéria. Tripulantes podiam comprar no Duty Free, mas as mercadorias tinham que ser entregues para eles a bordo do avião.
O dia ainda não tinha amanhecido e a movimentação já frenética na sala de trânsito do aeroporto tinha algo de irreal, como se estivéssemos envolvidos por brumas. Com a percepção sonolenta e letárgica de quem acordara no meio da madrugada, a primeira de muitas madrugadas acordadas, eu observava tudo.
Os rostos pálidos dos passageiros também recém-despertos e seus olhares perdidos, como se estivessem chegando de outra galáxia. A iluminação branca e fria que dava um ar de sonho a tudo. As luzes da pista e dos aviões estacionados na escuridão lá fora. A voz sem corpo no alto falante anunciando chegadas e partidas. O vai e vem dos funcionários uniformizados. Os diversos uniformes, alguns mais vistosos do que outros.
Entramos pelo finger e chegamos ao avião. O zumbido das turbinas e a vibração no chão foram os primeiros choques. E de dentro do avião veio o cheiro. Não dá para definir em palavras o cheiro. Não era agradável nem desagradável. Cheiro de outras terras, de estrangeiro, de desconhecido. Cheiro que convida, que aguça a curiosidade. A mistura de cheiros de suor de gente, poltrona de avião, perfumes diversos, roupas, comidas, combustível. O cheiro me envolveu totalmente. E foi nesse momento daquela madrugada fria que eu soube o que queria fazer. O que precisava fazer. Iria fazer parte daquele cheiro.
Os anos de profissão me ensinaram que cada país e cada povo tem seu cheiro característico. O único que não consigo identificar por estar envolvida nele é o cheiro do Brasil.
Mas o cheiro de um avião depois de horas de viagem é quase o mesmo, na sua maioria das vezes. Era o cheiro que ficava no meu uniforme quando eu chegava de voo. O mesmo cheiro que eu senti naquela madrugada, e que se tornou familiar porque tinha se tornado "meu".
Eu consegui.
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