"Pensei que era moleza mas foi pura ilusão
Conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão"
(Melô do Marinheiro - Os Paralamas do Sucesso)
Esse blog é dedicado a todos que voam, que já voaram e que sonham em voar!





sexta-feira, 17 de junho de 2011

A porta da felicidade


                              Ou: Agora sou comissário de voo internacional!!!

É fato que quem quer se tornar comissários de voo é porque gosta de viajar, tem interesse em conhecer outros lugares e outras culturas. E tirando raras excessões, a grande maioria sonha com o dia em que fará voos internacionais e conhecerá todos aqueles lugares que só viu nos filmes, nos documentários e nas fotos.

Viajar pelo Brasil é muito bom. O país tem uma grande diversidade cultural. Mas o que a maioria quer mesmo é "ganhar mundo"!

O critério utilizado pelas empresas aéreas para promover comissários para voos internacionais é a antiguidade. Se a companhia está crescendo, com novas aeronaves chegando e mais pessoal sendo contratado, o comissário não ficará muito tempo fazendo voos domésticos e logo será promovido.
Se ao contrário, a empresa está estagnada, tão cedo não haverá promoções...

O outro critério é o idioma. Se a empresa necessita de comissários que falem mandarin (por exemplo), e não tem pessoal suficiente entre aqueles que voam internacional, então o "novinho" que entrou mês passado e fala o idioma será promovido na frente dos mais antigos.
Vale ressaltar que tem que ser um idioma que poucos falam. Inglês, francês, alemão e outros mais comuns sempre tem pessoal suficiente para suprir a demanda.

Fazer voos internacionais significa voar menos, ter mais folgas e ganhar diárias na moeda do local. Mais do que isso, significa um novo status!

Os comissários que voam internacional fazem parte de uma outra "casta". Existem diferenças até no linguajar. Geralmente comissários de voos domésticos se referem a suas programações pelos números dos voos. Por exemplo: "Vou fazer o 3410". É que são tantos pousos que fica mais fácil assim.
Já aqueles que voam internacional se referem aos lugares para onde vão: "Amanhã vou fazer o Paris." "Cheguei hoje do Nova York."

As diferenças não param por aí. Há diferenças na sequencia do serviço de bordo e no ritmo de trabalho. As aeronaves agora são maiores. Wide bodies com dois corredores. O trabalho de equipe é mais cobrado. As tripulações são maiores. Não é mais aquela pequena "família" como as tripulações de voos domésticos.

Existe principalmente uma diferença comportamental entre comissários que fazem voos domésticos e os que fazem voos internacionais, mesmo dentro de uma mesma empresa. Isso pode acarretar choque cultural nos primeiros voos do neófito. Eu passei por isso no meu primeiro voo internacional, mas isso é assunto para um outro post.

O que realmente importa é que as portas do mundo se abrirão para você! A visão que as pessoas tem de você mudará ao saberem que você voa para fora. Por incrível que pareça, te tratam com mais respeito.
Só tome cuidado para isso não subir à sua cabeça!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vai começar a pauleira...

Vem aí as férias de meio de ano, época em que muita gente viaja. Não apenas os brasileiros, mas também os gringos de toda parte, pois é o início das férias de verão no Hemisfério Norte e a galera aproveita para voar.

Para os comissários é a época da pauleira. Escala apertada, voando mais do que urubu, no limite da regulamentação (em alguns casos estourando os limites...).
Aqueles dias tranquilos na serra ou na praia com a família ou amigos, pode esquecer! A viagem ao Nordeste, a Buenos Aires ou alhures só se for a pé, tripulando o avião.

É a época dos menores desacompanhados que os pais despacham nos voos para a casa da vovó, do papai, da mamãe, etc. aos cuidados dos comissários.
É a época da classe média emergente ir se deslumbrar na Disney, em Nova York, Paris e Madrid. E na volta da viagem brindar os amigos com centenas de fotos, horas de filmagem, histórias, impressões e comentários nem sempre ortodoxos sobre os lugares por onde passaram.

Temporada de voos atrasados porque os aviões operam no limite, de overbooking e de passageiros estressados pela longa espera e pela frustração de não conseguir embarcar.
E você, colega comissário tem duas opções para enfrentar tudo isso. Ou engrossa a fileira dos estressados ou segue o conselho lapidar da ex-ministra do Turismo: relaxa e goza!

Aproveite para pagar seus pecados e não precisar voltar ao plano terrestre tão cedo. E quando retornar à matéria nascerá rico, lindo, inteligente, charmoso e com aeronave própria para não passar por esse stress todo.

Mas se você não é do tipo espiritualizado, encare isso como um aprendizado para se tornar um ser humano melhor. Ah, filosofia também não é sua praia?  Então o melhor é levar na esportiva, respirar fundo e contar até mil porque uma hora tudo isso vai passar. Até começar a pauleira de final de ano...

OUWWMMMMMMM....
OUUWWMMMMMMM....
QUESACOWWWWMMMMM....
VOU MATARUMMMMMMM...
MESEGURAOUWWWMMMMM.....

sábado, 4 de junho de 2011

Como tudo começou


Eu trabalhava nas lojas Duty Free do aeroporto. Emprego que arrumei para ficar mais próxima da aviação numa época ainda sem as facilidades da internet.

Eram cinco e meia de uma madrugada fria. Meu primeiro dia de trabalho naquele ambiente mágico de chegadas e partidas.
Uma colega mais antiga me chamou para ir junto com ela entregar mercadorias compradas pelos tripulantes de um avião da Ibéria. Tripulantes podiam comprar no Duty Free, mas as mercadorias tinham que ser entregues para eles a bordo do avião.

O dia ainda não tinha amanhecido e a movimentação já frenética na sala de trânsito do aeroporto tinha algo de irreal, como se estivéssemos envolvidos por brumas. Com a percepção sonolenta e letárgica de quem acordara no meio da madrugada, a primeira de muitas madrugadas acordadas, eu observava tudo.

Os rostos pálidos dos passageiros também recém-despertos e seus olhares perdidos, como se estivessem chegando de outra galáxia. A iluminação branca e fria que dava um ar de sonho a tudo. As luzes da pista e dos aviões estacionados na escuridão lá fora. A voz sem corpo no alto falante anunciando chegadas e partidas. O vai e vem dos funcionários uniformizados. Os diversos uniformes, alguns mais vistosos do que outros.

Entramos pelo finger e chegamos ao avião. O zumbido das turbinas e  a vibração no chão foram os primeiros choques. E de dentro do avião veio o cheiro. Não dá para definir em palavras o cheiro. Não era agradável nem desagradável. Cheiro de outras terras, de estrangeiro, de desconhecido. Cheiro que convida, que aguça a curiosidade. A mistura de cheiros de suor de gente, poltrona de avião, perfumes diversos, roupas, comidas, combustível. O cheiro me envolveu totalmente. E foi nesse momento daquela madrugada fria que eu soube o que queria fazer. O que precisava fazer. Iria fazer parte daquele cheiro.

Os anos de profissão me ensinaram que cada país e cada povo tem seu cheiro característico. O único que não consigo identificar por estar envolvida nele é o cheiro do Brasil.
Mas o cheiro de um avião depois de horas de viagem é quase o mesmo, na sua maioria das vezes. Era o cheiro que ficava no meu uniforme quando eu chegava de voo. O mesmo cheiro que eu senti naquela madrugada, e que se tornou familiar porque tinha se tornado "meu".
Eu consegui.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Assento conforto

Cheguei ontem de viagem. Fui e voltei pela Tam. Apesar de ser um voo curto de menos de uma hora, é sempre bom estar no ar novamente. Se bem que viajar de graça é melhor. Tenho saudades do tempo em que eu embarcava no avião como se fosse minha casa. Ia na galley cumprimentar os colegas, na cabine de comando dar um oi para o comandante.
Agora é como se eu fosse uma visita de cerimônia, mas valeu mesmo assim.

Quando estou a bordo como passageira faço o gênero blasè. Não me apresento aos comissários como colega, principalmente porque a companhia aérea não é a "minha". Não puxo assunto nem forço intimidade porque sei que não é de bom-tom vindo de uma desconhecida.
Fico sentada quietinha só observando. Sou aquela passageira invisível com cara de paisagem, mas que não deixa passar nada. Um perigo!

Nessa viagem pude observar a mais nova modalidade dos "gênios" do marketing que as empresas aéreas contratam a peso de ouro para criar cag... ops, idéias: o Assento Conforto!
"Assento conforto" foi o nome criado para aqueles assentos situados na primeira fileira e nas saídas de emergência sobre a asa, com alguns poucos centímetros a mais de espaço para esticar as pernas.

Esses lugares "privilegiados" costumavam ser disputados no tapa por passageiros mais frequentes que já conheciam os "macetes" e chegavam no check-in exigindo: "Eu quero assento na saída de emergência!"
E ao serem informados que tais assentos não estavam mais disponíveis porque outros chegaram na sua frente ficavam resmungando e ameaçando fazer e acontecer.

Pois bem, senhores passageiros, como diriam as Organizações Tabajara: Seus problemas acabaram!!!
Agora por uma módica diferença no preço do seu bilhete você terá direito a seu assento conforto sem ter que se matar por isso!

No cabeçote dessas poltronas já vem demarcado: "Assento Conforto" que é para não deixar dúvidas. Meu voo estava com poucos passageiros, tanto na ida como na volta. Terminado o embarque como é de praxe os passageiros começaram a se reacomodar, procurando melhores lugares para fazer a viagem.

Naturalmente os assentos conforto foram prontamente ocupados por dois rapazes, que foram prontamente retirados de lá pela comissária que lhes explicou educadamente que para sentarem lá teriam que pagar a diferença do preço da passagem.

Dois minutos depois mais dois rapazes ocuparam os assentos, ou porque não viram o que aconteceu ou por que davam uma de "joão-sem-braço".
Novamente a mesma comissária fez o mesmo discurso e eles tiveram que sair de lá. E a viagem foi feita com os assentos conforto vazios.

Fiquei imaginando como seria se pegassem pela frente um passageiro "carne de pescoço" dizendo que dali não sairia nem a pau.
Chamariam a segurança para retira-lo do avião provocando atraso no voo? E se já tivessem decolado, a Policia Federal seria acionada no desembarque para autuar o cidadão pelo crime de sentar indevidamente no Assento Conforto?

Uma boa estratégia de marketing seria dar desconto no bilhete de quem optasse por sentar nos malditos e famigerados assentos do meio. Talvez isso acalmasse os ânimos de uns e outros como o tal jornalista Tessler.
Mas como eu sei que isso é pouco provável de acontecer, creio que o próximo passo dos gênios do marketing será criar tarifas diferenciadas para os assentos da janela e do corredor.
Como se chamariam tais assentos? Assentos Diferenciados? Assentos Plus? Assentos Mais Você? rsrs

Aceitamos sugestões!

sábado, 21 de maio de 2011

O lado bom!

Alguns leitores me questionaram pelo fato de eu só mencionar o lado ruim da profissão de comissário e não falar sobre o lado bom.
Eu priorizei o lado "ruim" por ser o menos divulgado, o que muita gente desconhece.

Mas é óbvio que o lado bom existe, e é muito bom! Tão bom que a profissão vira uma "cachaça".

Começando pelo lado prático, é muito bom trabalhar de uniforme. A gente não tem gastos com "roupas de trabalho", não precisa se preocupar com o que vai vestir hoje, se vai repetir roupa, se uma peça combina com a outra. É só vestir o uniforme e pronto! Gastamos nosso suado dinheirinho só com roupas que nos agradam.

É bom também não ter que sair para trabalhar todo dia. Vai-se uma vez, fica-se alguns dias fora e só depois volta. Não encara hora do rush na maioria das vezes.

Trabalhar em feriados pode não ser bom, mas estar de folga numa quinta feira e poder pegar uma praia sem farofeiros, um cinema  quase vazio ou passear no shopping sem ser atropelado é ótimo!

Agora vamos ao lado massagem no ego. O fato de estar vestido com uniforme de companhia aérea (geralmente são bonitos e elegantes), desfilando nos aeroportos, hotéis, entrando ou saindo de casa com a mala faz com que as pessoas nos olhem com certa deferência, até mesmo com admiração. Isso faz muito bem para o ego! Com a cabeça erguida, o peito inflado e os olhos brilhando, a gente se sente!

Muito bom também é poder ter acesso a coisas exóticas que não se encontram em nossa cidade ou país. Pode ser objetos de decoração ou comestíveis.

Na minha despensa sempre tinha: queijos e manteiga franceses, chocolates com marzipan da Alemanha, conservas de atum, polvo e lula da Espanha, azeite italano, doce de leite argentino e outras guloseimas que não podiam faltar. Sem contar que volta e meia eu me dava ao trabalho de trazer muito bem  malocado escargot congelado com ervas finas e cogumelos frescos de todos os tipos.
Alô, Anvisa!!! Vem me pegar agora! kkkkkk

Na casa de um comissário sempre tem alguma coisa diferente para servir aos amigos. E os amigos ficam mal acostumados: "Ué, o Easy Cheese acabou?"

As comprinhas que o comissário faz podem causar mal entendido nas pessoas mais chegadas:
- Lindas essas taças de vinho! Comprou aonde?
-Em Paris.  
Nojenta...
Juro que não é por mal! É que para quem trabalha viajando já virou rotina chegar de Paris, ou Londres, ou Nova York. A gente muitas vezes se esquece que para a maioria das pessoas ir a Paris é um luxo e acaba sendo mal interpretado. Para nós é uma tremenda saia justa. Se não dizemos nada somos metidos, se dizemos a verdade somos metidos. E aí?

Muitas vezes quando assistimos a um filme reconhecemos lugares por onde passamos rotineiramente. Ruas, praças, prédios, estações de metrô.

Outra coisa que dá muito prazer é poder levar conosco em alguma viagem um familiar. Marido, mulher, filho, pai, mãe, irmão. O orgulho que eles tem de nós é evidente na maneira com que eles se referem a nós para outras pessoas. Presentear as pessoas queridas também é muito bom.

Falando agora no lado psicológico, a profissão de comissário nos dá outra visão de mundo. Nós nos tornamos pessoas mais tolerantes. Aprendemos a respeitar diferenças culturais e a dar valor ao que temos de bom no nosso varonil país, apesar de ficarmos com o olhar mais crítico.  Ficamos com mais traquejo, mais jogo de cintura. Sabemos nos virar em qualquer lugar do mundo. Ficamos mais cosmopolitas. Arrisco-me a dizer que, se não todos pelo menos boa parte, tornam-se pessoas melhores.