"Pensei que era moleza mas foi pura ilusão
Conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão"
(Melô do Marinheiro - Os Paralamas do Sucesso)
Esse blog é dedicado a todos que voam, que já voaram e que sonham em voar!





quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Filhos, trabalho e culpa

Para muitos pode parecer que a maternidade é incompatível com a profissão de comissária. Em tempos mais remotos essa percepção era tão certa que as "aeromoças" quando se casavam tinham que pedir demissão. Não era a toa que elas eram sempre aeroMOÇAS! rsrs

Mas eram outros tempos. Tempo em que muitas mulheres não trabalhavam fora, e as que trabalhavam ou estudavam deixavam de faze-lo quando se casavam para priorizar a família e os filhos que viriam.

Hoje os tempos mudaram. As mulheres trabalham fora não mais por opção, mas por necessidade mesmo. Quando são casadas, muitas vezes o salário do marido não é suficiente para sustentar a casa e os filhos. E por falar em filhos, a maternidade deixou de ser vinculada ao casamento. As mulheres tem filhos e continuam solteiras, ou se separam com os rebentos ainda pequenos.

Toda mãe que trabalha fora se sente culpada quando deixa o filho aos cuidados de terceiros. Fato. A função de mãe está ligada à culpa desde tempos imemoriais. A mãe é sempre a culpada de tudo!
Se o filho é um delinquente: culpa da mãe que não estava presente na formação dele!
Se o filho é mimado e imaturo: culpa da mãe que fazia todas as vontades dele!
Se vai mal na escola: culpa da mãe que não acompanha os estudos dele!
Se é estudioso, centrado e inteligente: a mãe não fez mais do que a obrigação!

A comissária pode perfeitamente conciliar o trabalho com a maternidade sem causar traumas nem deixar sequelas em ambos (mãe e filho).

Ao ser detectada a gravidez, a comissária deve notificar a empresa e sair da escala de voo. Comissárias não podem voar grávidas, não por causa do voo em si, mas pela natureza do trabalho a bordo que requer esforço físico.
Enquanto estiver afastada a funcionária recebe da empresa um salário maternidade, que consiste no salário em carteira, sem as horas de voo.

Como o INSS não considera gravidez como doença, e de fato não é, o salário maternidade é pago até o oitavo mês de gestação, quando após a perícia feita no CEMAL ou outro órgão responsável pela emissão do CCF, a comissária inicia a licença maternidade de 120 dias assegurada por lei a todas as mulheres que trabalham no regime de CLT.

Na prática a mãe comissária fica quase um ano afastada do trabalho, pois é costume emendar as férias na licença maternidade, barganhar mais uns 15 dias se o pediatra atestar que a criança precisa...

Até aí, tudo bem. Mas vai chegar a tão temida hora de retornar à escala de voo! Afinal, trabalhar é preciso!

A maioria das comissárias ou já são mães, ou um dia irão se tornar.

Apesar de saber que cada caso é um caso, que cada uma sabe aonde o calo mais aperta, que os conselhos para umas podem não servir para outras, e que se conselho fosse bom ninguém dava, só vendia, esse blog é dedicado para aqueles que voam, já voaram ou pensam em voar.
Então eu não poderia me furtar a deixar aqui registrado algumas dicas, sugestões e conselhos grátis de alguém que já passou pela experiência e já sentiu na pele toda culpa e toda a angústia, mas que sabe que tudo isso valeu a pena.
Os conselhos a seguir são baseados em experiências próprias e de outras comissárias mães, guerreiras e dedicadas que generosamente compartilhavam as vivências com as companheiras de jornada.


  • Tente (pelo menos tente) manter o corpo em forma durante a gravidez. Nada de achar que você tem que comer por dois! Lembre-se de que você vai ter que caber dentro do uniforme quando retornar.

  • Mesmo que você tenha ajuda de terceiros, procure uma creche para seu bebê por meio período. Existem creches que aceitam bebês a partir de seis meses. Procure uma próxima da sua casa. Se tiver referências melhor. Se não tiver, peça para conhecer as dependências, converse com pedagogas e psicólogas, faça visitas surpresa, converse com outras mães que tem filhos lá. É importante para criança se socializar desde cedo, além de não sobrecarregar a pessoa que está te ajudando, porque afinal de contas a mãe é você e não ela!
  • Obs. Não se iluda pensando que a sua mãe vai ter sempre a maior boa vontade em te ajudar. Volta e meia elas reclamam mesmo, porque uma coisa é ser avó e só paparicar o netinho, outra coisa é ficar no seu lugar de mãe enquanto você está voando.

  • Ao contratar uma empregada, faça isso enquanto estiver de licença maternidade para poder observar de perto a postura dela e como seu filho reage a ela. Explique como será sua rotina quando você retornar ao trabalho. Deixe claro que você trabalha aos domingos e feriados e pergunte se ela está disposta a encarar essa rotina. Você pode compensa-la com folgas durante a semana.  
No quesito empregada doméstica vale ressaltar que nem sempre elas cumprem o prometido!  Enquanto você está de licença está tudo bem, mas no primeiro domingo ou feriado que elas tiverem que trabalhar, pode acontecer de roerem a corda e mudarem de idéia. Por isso esteja muito segura da pessoa que contratar!

  •  Não pense que só porque seu filho ainda é um bebê ele não vai sentir sua ausência. Crianças muito pequenas manifestam suas emoções somatizando febre alta, erupções cutâneas, vômitos, etc. Prepare-se para a possibilidade de chegar de voo e ter que decolar novamente rumo ao pediatra com seu filho no colo. Tenha em mente que isso é uma fase e vai passar. Não se sinta culpada (pelo menos tente!).

  • Em uma determinada fase pode acontecer de seu filho começar a chorar toda vez que você vestir o uniforme. Isso acontece por volta dos três anos, mas pode variar. Resista para não chorar também. Faça das tripas coração, fale com ele com muita calma e carinho, mas com firmeza, que a mamãe tem que sair para trabalhar, mas que sempre vai voltar para ficar com ele. Não ceda aos apelos, a não ser que ele esteja realmente doente. Se você ceder, ele vai entender que essa é a maneira de manter a mamãe perto dele e continuará fazendo. Lembre-se novamente de que isso é uma fase e também vai passar!

  • Sei que é inútil dizer para uma mãe que se sente culpada por estar longe do filho para evitar trazer presentes toda vez que chega de voo! Claro que você vai ver um monte de coisas bonitas e diferentes que seu filho vai gostar! E que você vai comprar essas coisas! E vai ter o impulso de abrir a mala assim que chegar em casa para mostrar os presentes, como forma de compensar sua ausência. E com isso a criança vai associar sua chegada aos presentes que ela vai ganhar! E ao invés de você, o interesse dela vai estar concentrado na sua mala!
Então faça o seguinte: Compre os presentes que você quiser, mas não dê ao seu filho de imediato. Guarde para dar em um dia especial, como aniversário, dia das crianças ou algo assim. Vá juntando o que você trouxer e dê nesses dias. Presentear o filho uma vez ou outra quando se chega de voo não tem problema. Mas fazer disso um hábito não é benéfico nem para a criança, que se torna interesseira e nem para a mãe, que se vê na obrigação de sempre comprar presentes.

  • Quando seu filho tiver idade suficiente, leve-o em um voo que você esteja tripulando. Assim ele vai poder ver como é seu ambiente de trabalho, o que você faz a bordo e ainda vai poder curtir um pernoite com você no hotel (eles adoram hotéis!) e dependendo do voo fazer alguns passeios. Eu levei meu filho comigo pela primeira vez quando ele tinha quatro anos. Era um voo para Manaus com escala em Brasília, e o pernoite era em um hotel maravilhoso. Ele adorou e se comportou bem a bordo. Os colegas ajudam e às vezes até os passageiros. Depois disso fiz voos mais longos com ele, para Europa e Estados Unidos.

No final de tudo, eles sentem muito orgulho de nós! E ainda tiram onda com os amigos contando das viagens que eles fizeram. O mundo se abre para eles também, pois a oportunidade de ter contato com outras culturas e visitar outros países não tem preço e faz uma grande diferença na formação do caráter deles e na visão que eles terão do mundo e das pessoas.

E isso faz todo sacrifício valer a pena!

sábado, 22 de outubro de 2011

Dia do Aviador

No dia 23 de Outubro de 1906, o brasileiro Alberto Santos Dumont a bordo do 14 Bis decolou do Campo de Bagatelle em Paris e percorreu 60 metros, voando a uma altura de cerca de três metros do solo na frente de centenas de testemunhas.
Com esse feito ganhou a taça Archdeacon e a prova para aparelhos mais pesados que o ar, nome que os futuros aviões tinham na época.

O 14 Bis, que levou cerca de dois meses para ser construído, foi o primeiro avião do mundo a realizar um voo completo: decolagem, o voo propriamente dito e pouso.

Porém, a autoria da invenção do avião foi atribuída a dois irmãos americanos, os irmãos Wright, por questões nacionalistas e de outros interesses em jogo.

Santos Dumont, por sua personalidade idealista nunca patenteou seus inventos. Preferiu coloca-los à disposição de quem quisesse construi-los e utiliza-los.

Para os brasileiros Santos Dumont É o Pai da aviação, mesmo que o mundo diga o contrário. Por isso o dia 23 de Outubro no Brasil é o Dia do Aviador.

Graças a esse homem genial, controverso e idealista hoje podemos realizar o sonho ancestral da humanidade de voar sem ter asas. E quem já experimentou o gosto de voar não consegue mais ficar com os pés na terra sem olhar para o céu.

"Haverá hoje, talvez, quem ridicularize minhas previsões sobre o futuro dos aeroplanos. Quem viver, porém, verá..." Alberto Santos Dumont. Paris, França - 1905.

sábado, 15 de outubro de 2011

Coisas que nos irritam - Encomendas



Se há algo que irrita tripulantes em geral, em especial os comissários por serem os mais procurados, são as encomendas que as pessoas fazem sempre que eles vão viajar.
  Pelo fato do comissário ter acesso fácil a bens de consumo em outros países, tem gente que pensa que eles tem obrigação de aceitar encomendas, por mais estapafúrdias que elas sejam.

Vou transcrever aqui um texto que apesar de não ser meu não poderei dar os créditos, pois encontrei na internet e não constava o autor. Mas resume perfeitamente esse péssimo hábito que o povo tem de fazer encomendas aos que vão viajar. O texto se refere àqueles que viajam a turismo, mas é só multiplicar por 1000 para se ter uma idéia de como isso irrita os comissários:
"Fazer encomendas a quem viaja é um dos costumes mais antigos que existem.

E põe antigo nisso. Fazer encomenda é do tempo em que se tinha medo de avião. Do tempo em que família, a família da namorada, algumas ex-namoradas e o prédio inteiro iam se despedir de você no aeroporto — até na ponte aérea. Do tempo em que o exterior era conhecido como “o estrangeiro”. Do tempo em que produto importado era não apenas raro, como na maioria das vezes ilegal.

Hoje em dia, dependendo da natureza do pedido e do grau de relacionamento entre o pedinte e o viajante, a encomenda pode variar entre: 

1) um mau costume; 

2) uma total falta de educação.

Na hora de pedir — e de aceitar — uma encomenda, ninguém se dá conta do transtorno que vai ser, em algum momento da viagem, parar para pensar na encomenda, andar para comprar a encomenda, achar a encomenda, conferir as especificações da encomenda, pagar a encomenda, empacotar a encomenda, fazer a encomenda caber na mala, carregar a encomenda, passar pela alfândega com a encomenda.
A última vez que eu fiz uma encomenda, foi para uma (ex) funcionária minha que tinha acabado de pedir demissão e ia passar uma semana em Paris. Como você vê, ela merecia.
As encomendas enganam. 
As que parecem fáceis demais sempre têm dois ou três modelos para você escolher (e ninguém te falou isso antes). Com as super-especificadinhas, é batata: a linha foi renovada, mudaram os nomes e as embalagens, e esqueceram de avisar a pessoa que te fez a encomenda. Outras encomendas até que fazem sentido no calor do momento, mas acabam ininteligíveis na hora que você retoma o assunto e vai comprar: o que era aquilo mesmo que ela falou?
 Resista. Mude de assunto. Tenha uma vontade súbita de ir ao banheiro, e suma. Se for para perder o amigo, melhor que seja agora do que na volta (depois do trabalhão que a encomenda vai ter dado). Se você quiser lançar mão de desculpas e subterfúgios educados, aqui vão alguns.
• Peça o endereço da loja. Endereço completo, por favor. Se for necessário, seja acometido por uma amnésia rápida: Broadway? Como assim, Broadway? Ou mude-se mentalmente para o outro lado da cidade e prometa que, se passar por lá, vai tentar, quem sabe se tudo correr bem, achar.

• Peça por escrito. “Você me passa depois tudo direitinho por escrito?”. E não esqueça de desligar o fax.

• Se o pedinte for seu superior hierárquico ou parente mais velho: minta. Minta deslavadamente. Fale que você procurou feito um doido mas não achou. Descreva todas as coisas que você supostamente deixou de fazer só para procurar a encomenda. Misture as letras da marca encomendada, e diga que ninguém nuuunca ouviu falar desta marca lá onde você foi.
 • Se você aceitar a encomenda e depois se arrepender: não traga nada. Compre mais um exemplar deste elucidativo compêndio e dê de presente — com um post-it amarelinho colado na página inicial deste capítulo."
Em relação a encomendas, vou acrescentar algumas coisas que deixam os comissários loucos da vida. Geralmente as encomendas não vem acompanhadas de dinheiro. É na base do "compra aí que na volta a gente acerta". E na hora do acerto muitas vezes saímos perdendo. A compra foi feita em Dólares ou Euros, e o pagamento é em Real com câmbio defasado! Isso quando não se leva calote. A pessoa faz a encomenda e passada a euforia do momento se arrepende. E aí não te atende mais ao telefone, manda dizer que não está, some do mapa!

Outra coisa irritante são os "favores" que as pessoas acham que comissários tem que prestar, já que "vivem viajando mesmo".

Como no caso da esposa de um conhecido que tinha um salão de beleza, e perguntou se eu poderia trazer para ela três potinhos de um creme para cabelos. Eu não precisaria fazer nada. O irmão dela que morava em Nova York passaria no meu hotel e deixaria os cremes. Ao perguntar qual era o tamanho dos potes fui informada de que eram mais ou menos do tamanho de uma lata de refrigerante.

Resumindo a história, o irmão passou no hotel tarde da noite, e para não me acordar deixou os cremes na recepção. No dia seguinte quando eu peguei, constatei que cada "potinho" do tal creme, além de ser bem maior do que uma lata de refrigerante, pesava pelo menos três quilos! Ódio!

Fora os telefonemas que você recebe de gente que você nunca ouviu falar se apresentando como "primo do vizinho da cunhada da sua amiga", aquela sua amiga muy amiga que deu seu telefone, te pedindo para comprar um remédio específico, ou pior, para levar alguma encomenda para alguém.

Como muitos dos que acessam esse blog tem interesse em ser comissário, vou deixar aqui dois conselhos que dou de graça:

1) NUNCA aceite levar pacotes de terceiros para alguém, principalmente se o voo é para o exterior. Nem se for um ursinho de pelúcia para a netinha de uma avozinha muito simpática e querida. Mas se for impossível escapar dessa cilada, abra o pacote e confira detalhadamente o conteúdo. Comissários são muito visados para transportar coisas ilícitas. Até você explicar que focinho de porco não é tomada...

2) Não tenha receio de recusar encomendas de ninguém. Nem da sua mãe! Às vezes até a mãe da gente perde a noção. Diga um NÃO bem redondo! Se a pessoa ficar magoada e ofendida, azar o dela. Antes ela magoada do que você irritado(a), estressado(a) e cheio(a) de rugas!


 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Saudades dos tempos da Pan Am...

Uma nova série estréia na ABC, rede de TV americana. Não sei quando ou se vai chegar às terras tupiniquins, mas quem puder baixar no Tio Tube, no site da ABC ou conseguir com um amigo que mora na América, vale super a pena!

Era uma vez uma época glamourosa, nos distantes anos 60, onde a galera curtia sexo, drogas e rock'n'roll, mas também era um tempo em que as mulheres, inclusive as comissárias tinham o direito de serem mulézinhas, e não a multimulher que somos obrigadas a ser agora.

Era uma vez um tempo em que póóóbre passava longe de avião, e onde viagens aéreas eram privilegio de poucos.

Milton Nascimento (aquele que estava mais perdido do que o cego Stevie Wonder em tiroteio no Rock in Rio) fez uma canção chamada "Saudades dos aviões da Panair". 
Eu não me lembro da Panair. Quando ela foi "falida" pela ditadura militar eu era muito pequena para me lembrar de qualquer coisa.

Mas da Pan American eu me lembro bem! Lembro do glamour e também da queda. E por causa disso eu sei que o mundo é redondo, e que tudo se desloca. (Quem leu As Brumas de Avalon sabe do que eu estou falando). Um dia você dorme rei, no outro acorda mendigo.




Como sugestão de filmes que valem a pena para quem gosta ou quer entrar na aviação, sugiro Prenda-me se for Capaz, com Leonardo Di Caprio e Tom Hanks.


O tema principal do filme não é a aviação. Mas eu garanto que vocês vão gostar. E muito!!!

Para quem quiser baixar a série legendada, ela está disponível AQUI, ou no  Portal Meio Aéreo

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Pernoites


Lendo um post do blog É tanto que transborda do comissário Filipe Eloy, me veio à memória os pernoites, que são parte importante da vida de um comissário.

Segundo o dicionário, pernoite significa passar a noite onde não é costume passa-la. Para tripulantes pernoitar é parte da rotina e os hotéis são como uma segunda casa.

Existem hotéis onde a gente se sente mais confortável, e isso não tem necessariamente nada a ver com luxo, mas com a acolhida que recebemos no local.

Quando começa a voar, o comissário neófito quer mais é bater perna, conhecer tudo, aproveitar ao máximo a oportunidade de estar em outra cidade ou país. Os colegas mais antigos geralmente o apresentam aos lugares frequentados pelos tripulantes, ensinam dicas de como fazer a diária render comprando e comendo mais barato. As horas de repouso depois da jornada de trabalho são aproveitadas com tudo, menos com repouso. Afinal, quem vai pensar em dormir quando o mundo está lá fora esperando?

Mas o tempo passa. O que era novidade deixa de ser, e até a mais sedutora das cidades pode se tornar uma rotina penosa. Sem contar que, passados os momentos de êxtase e de euforia, muitas vezes levamos para os pernoites problemas pessoais que ficaram pendentes para serem resolvidos quando voltarmos. Ou então o cansaço se torna maior do que a vontade de conhecer. E muitas vezes não podemos contar com nossos colegas de equipe para um desabafo, ou apenas para jogar conversa fora.

É aí que entra o maior inimigo do tripulante: a solidão! Já falei disso em outros posts, O outro lado da moeda Parte 2 e Comissários: Modus Operandi-parte 2.

É fundamental não ficar alimentando a deprê! Quanto mais a gente se sente miserável e desgraçado, mais a gente se torna. Se você está naqueles dias em que acha tudo e todos sem graça e quer mais é encontrar um buraco para se enfiar, ou se simplesmente está cansado demais para sair é bom ter um kit-pernoite na mala!

Para quem gosta de ler, nada melhor do que um bom livro para nos fazer companhia e nos transportar para um mundo onde nossos problemas não existem. Livro era um ítem que não podia faltar na minha bagagem, e devo dizer que era muito mais prazeroso ler nos pernoites do que na minha própria casa com interrupções a toda hora.

Se você está com a cabeça tão atribulada que nem consegue se concentrar num livro, não tem problema! Providencie um monte de revistas de fácil leitura, tipo Caras, Capricho, Marie Claire, etc. Ou se você é "menino" e não curte fofocas de artistas, pode ser Veja, Época, Isto É. O importante é que a leitura seja de fácil assimilação.

Para quem leva consigo o netbook, não use a internet para entrar no Skype, MSN ou coisa assim para ficar "discutindo relação" e resolvendo pendengas. Pelamordedeus! Use para navegar por águas mais calmas e se distrair. Os problemas podem esperar, eles estarão lá quando você voltar (infelizmente).

Dependendo do hotel e do local onde você se encontra, procure algum filme ou programa interessante na televisão e peça no serviço de quarto uma refeição gostosa para saborear enquanto assiste. Mime-se um pouco e deixe de ser mão de vaca com a diária pelo menos uma vez!

Se tiver banheira, leve na mala sais de banho e relaxe na água morninha!

Para as mulheres ainda tem como opções para aproveitar o tempo ocioso: depilar as pernas, hidratar os cabelos, fazer máscaras faciais, usar cremes esfoliantes para a pele, enfim, todas aquelas coisas que muitas vezes não dá tempo de fazer em casa porque o tempo é curto e a gente tem mais o que fazer.

Quem está fazendo algum curso ou faculdade pode aproveitar para estudar. Acreditem: estudar em pernoite rende muito mais!

Procure relaxar, dormir bem e repor as energias, pois além de ficar lindo(a) e sem olheiras para o voo da volta, você estará mais disposto(a) e revigorado(a) para encarar os "pepinos" que te esperam!


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Coisas que nos irritam


 É de conhecimento de muita gente que tripulantes reclamam muito. É cultural, faz parte do perfil da profissão. Se você não era muito reclamão antes de começar a voar, vai se tornar. É contagioso. Alguns mais, outros menos, mas reclamar faz parte do contexto.

Isso dá margem a muitos comentários maldosos sobre a classe, alegando que tripulante "chora de barriga cheia", e contribui para alimentar a imagem de antipáticos e arrogantes que o grupo tem perante muita gente.

Essa imagem não condiz com a verdade. A maioria dos tripulantes é composta por pessoas de boa índole, prestativas, generosas,que sabem até rir de si mesmas.
Mas trabalhar com público, ao mesmo tempo que tem seus encantos tem também suas idiossincrasias. Certas atitudes dos passageiros irritam sobremaneira o comissário. Com certeza qualquer profissional que trabalha com público tem sua lista negra de comportamentos irritantes de seus clientes.

Nem vou entrar no mérito do passageiro grosseiro e arrogante, pois esse tipo de gente tira qualquer um do sério.
Relembrando meus tempos a bordo me veio à memória certos comportamentos que pelo que pude constatar não mudam com o passar do tempo e continuam a irritar as novas gerações.

Se você é passageiro, aprenda o que não fazer, mesmo sem querer. Se você é candidato a comissário, prepare-se para o que vai enfrentar. Se você já voa e tiver mais sugestões para a lista, fique à vontade!

O cutucador - Nunca em toda minha vida eu conheci alguém que gostasse de ser cutucado. Aliás nunca conheci ninguém que nem se importasse em ser cutucado. Então por que, oh, Senhor,por que alguns passageiros insistem em cutucar os comissários? Tem boca pra que? Custa chamar: Moça! Aeromoça! Rapaz! Meu camarada! Isso para não dizer um Por favor, porque aí também já é pedir demais!



O navegador- Você está concentrado na função de servir refeições e bebidas, correndo contra o tempo porque a etapa é curta. Aí vem o iluminado com a pergunta: "Onde nós estamos agora?" ou então "Que rio é aquele lá embaixo?" , ou apontando para um monte de mato: "O que é aquilo?"
Como se comissários já soubessem a rota de cór. Todos os rios, todas as montanhas, a exata latitude e longitude do exato momento que nosso passageiro navegador faz a pergunta.
Para a primeira pergunta eu sugiro olhar para ele com cara de total espanto e responder desconfiado: "Estamos dentro de um avião."
Para outras o que não vão faltar são respostas como "É o Rio das Pedras." 
Então se você não quiser ser enganado não faça esse tipo de pergunta a quem não tem condições de responde-las.

O sem-caneta - Esse tipo aparece principalmente em voos internacionais, onde todo mundo sabe que existem formulários que devem ser preenchidos para a entrada no outro país. A criatura vai viajar para o exterior sem uma mísera caneta Bic na bagagem de mão! Então pede a caneta ao comissário, que gentilmente a empresta e quando precisa dela (geralmente com urgência), não a encontra porque o passageiro ficou com ela.
Atenção: Comissários não carregam consigo enquanto executam o serviço nenhuma bolsa repleta de canetas! Geralmente todos tem uma no bolso, pois é essencial. Se tiver outras, estas estarão guardadas em sua bagagem de mão que fica em local distante ou inacessível no momento em que ele precisar da caneta.
Por isso, querido passageiro, ao viajar leve sempre consigo uma caneta. Coloque-a junto do passaporte para não esquecer. E nunca pergunte ao comissário "como é que um comissário de voo internacional não tem uma caneta para emprestar?".  Você pode ouvir como resposta: "Não tenho porque perdi todas emprestando para passageiros de voo internacional."



O ínconveniente - Mais comum de se encontrar em voos mais longos, onde há um intervalo entre dois serviços de bordo, ou entre o final do serviço de bordo e o pouso. Após servir refeições e bebidas a duzentos passageiros, é a vez do comissário tentar consumir algum alimento. Ao contrário do que se pensa, aviões não são parecidos com transatlânticos. Não há áreas reservadas. O espaço é pequeno e a tripulação tem que comer improvisando uma privacidade relativa. O comissário pega sua bandeja e procura algum canto para se sentar. Uma caixa, uma mala, o jump seat. E lá está ele mal acomodado comendo a refeição insossa, quando o passageiro o descobre nesse momento de intimidade e resolve que aquela é a tão esperada hora de "conversar com uma aeromoça".
Ele não percebe que aquele é um momento de paz. Um momento em que o que o comissário mais deseja é ficar calado, consigo mesmo, repondo as energias. E o mala sem alça começa o questionário: "Quantos países você conhece?" "Quantos voos você faz por mês?" "Vocês tem família?" "Você não tem medo?" E por aí vai o interrogatório.
Quando o comissário está disposto a uma conversa, ele mesmo puxa assunto. Se ele está comendo ou responde com monossílabos, pode ter certeza de que você está sendo inconveniente.




O porcalhão - Nada mais desagradável do que você estar manuseando alimentos e aparecer um sem-noção colocando na sua mão um lixo qualquer. Um saco com restos de comida ou com papéis rasgados pedindo para você jogar fora. Justamente na hora em que você está servindo aos demais passageiros e não tem lugar para desovar o lixo. Pior é quando te dão nesse momento fraldas usadas, lenços de papel usados ou (argh!!!) sacos de enjoo usados!



Os pais desencanados - Viajam com os filhos e deixam os pimpolhos circularem livremente pelo avião esbarrando em tudo, tropeçando em tudo e enchendo o saco de todo mundo, enquanto fingem que estão dormindo e esperam que os comissários sirvam de babá para os rebentos.





O carente - A hora do embarque é o momento de maior stress e trabalho para os comissários que devem ficar atentos a qualquer sinal que possa comprometer a segurança e o bom andamento do voo. Além disso é função dos comissários agilizar a acomodação dos passageiros, evitando situações como assentos trocados, bagagens em saídas de emergência, e tudo o mais que possa atrasar a decolagem.  O carente mal pisa no avião e já pede um copo d'água, um remédio para dor de cabeça ou para enjoo. Será que não dá para esperar até que todos estejam acomodados para começar o aluguel?



O habitué - Ele tem cartão fidelidade da empresa, viaja toda semana e se sente dono do avião e dos comissários. Sabe de todas as rotinas, questiona quando alguma coisa sai diferente do habitual. Até aí nada demais. Mas se ele começar a agir como "sinhozinho", é melhor situa-lo no contexto e lembra-lo de que estamos no século 21, que a escravidão já acabou há muito tempo e que o fato dele ser um passageiro frequente pode até lhe dar milhagens, mas não lhe dá o direito de ser arrogante.





Quem tiver mais tipos para acrescentar à lista pode ficar à vontade!





quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Momentos saia justa

A amiga pergunta: -Vamos ao cinema amanhã?
-Amanhã não vai dar. Estou indo voar.
-Vai pra onde?
-Paris.
-Mas você é muito metida mesmo, né? Fica esnobando a gente! Nojenta!
Tipo de situação que eu sempre detestei! Para que pergunta se não quer saber a resposta, cacete! Várias vezes eu pensei em mentir e dizer que ia para Macapá ou coisa que o valha. Mas vai que alguém me achasse metida também... Melhor metida do que mentirosa.

Acordar das profundezas de um sono em um quarto de hotel escuro e não se lembrar de aonde você está. Vários segundos se passam até o cérebro pegar no tranco e colocar os sentidos para funcionar. Olfato, tato, audição. Segundos que parecem horas até você encontrar o interruptor e acender alguma luz.
Bem vindo ao jet lag!

O que fazer quando se está servindo um copo de Coca Cola a um passageiro, o primeiro copo de uma garrafa Pet de dois litro, e a garrafa escapa da sua mão, cai de "bunda" no chão e o líquido explode tal qual champagne em comemoração de vitória da Fórmula Um, dando um banho no passageiro?
Desejar uma despressurização explosiva para mudar o foco do momento? Tentar abrir a porta da aeronave para se jogar de lá de cima? Implorar desculpas?
Optei pela última. E por sorte o passageiro era uma criatura iluminada, dessas que são difíceis de se encontrar e acabou até achando graça da minha cara de desesperada.
Milagres acontecem...