"Pensei que era moleza mas foi pura ilusão
Conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão"
(Melô do Marinheiro - Os Paralamas do Sucesso)
Esse blog é dedicado a todos que voam, que já voaram e que sonham em voar!





terça-feira, 17 de maio de 2011

O outro lado da moeda - Parte II

No outro post sobre o assunto escrevi sobre o desgaste físico da profissão e como isso afeta nosso organismo.
Nesse post falarei sobre os aspectos psicológicos.

Já ouvi diversas vezes de candidatos a comissário que gostariam de seguir a profissão, dentre outras coisas por não ter rotina e não ter horários fixos.
Como assim não ter rotina, cara pálida? Tripulantes tem rotina sim, e rotina bastante pesada! E também tem horários a cumprir, mais até que os "terráqueos". Se alguém chega atrasado no escritório por exemplo, leva uma bronca do chefe, uma gozação dos colegas ou coisas do gênero e fica por isso mesmo.
Se o tripulante se atrasa para o seu voo, fica vendo seu avião decolar com outro colega em seu lugar e perde o dia de trabalho.

Compreendo que o que as pessoas querem dizer com "não tem rotina" é o fato de não ter que chegar todo dia na mesma hora e sair sempre no mesmo horário, e nem trabalhar sempre com as mesmas pessoas.

O que a gente se esquece ou nunca soube é que a famigerada rotina além de nos entediar também serve como um lastro psicológico. A rotina pontua nossa vida, é um ponto de apoio.
O fato de não trabalhar sempre com as mesmas pessoas tem suas vantagens, mas por outro lado dificulta a criação de vínculos afetivos.

Tudo isso somado ao fato de que o tripulante passa grande parte do tempo longe da sua casa, da sua família e seu círculo de amizades, enfim, longe de tudo aquilo que lhe dá segurança, que está familiarizado e se identifica pode trazer consequencias.

Mesmo os que alegam "não se prender a laços familiares" são afetados por isso. Não é à toa que o mês de dezembro é aquele de maior stress entre os tripulantes por causa das programações de Natal e Ano Novo.
Todo mundo fica na maior ansiedade para saber se terá folga para poder confirmar a festa, a ceia, a reunião com os amigos,etc.  E se vão voar ficam na expectativa de para onde será o voo e quem será a tripulação.

Os transtornos mais comuns entre os tripulantes são depressão, síndrome do pânico e alcoolismo. Justamente pelo tipo de rotina disfuncional a que são submetidos e que dificulta a criação de vínculos. Claro que nem todos desenvolvem tais patologias. E mesmo entre aqueles que desenvolvem existem graus diferentes de comprometimento. Outro transtorno que pode ser consequencia dos anteriores é a dependência química de drogas lícitas. Ansiolíticos, antidepressivos e soníferos que o tripulante se utiliza para minimizar os sintomas que o incomodam ou garantir uma melhor qualidade do sono podem causar dependência se não fizer o devido acompanhamento.

Assim como cuidamos da saúde do corpo temos que cuidar também da saúde mental. Ter uma família que nos apoia ajuda bastante, mas nem todos tem essa sorte. Os amigos são a família que nós escolhemos e o apoio deles pode ser fundamental na hora em que o bicho pega.

O mais dificil é assumir que estamos com um problema. Por motivos óbvios como o financeiro ($$$) a gente não pode se dar ao luxo de dar um tempo para tratar o transtorno como se deve, com medicamentos, terapia e afastamento temporário do trabalho. Por isso a maioria empurra com a barriga. Até a hora do "Pára o mundo que eu quero descer!". Ou a hora em que o corpo começa a somatizar uma série de ziquiziras inexplicáveis.  Ou pior, até a hora do surto. (Já tive um colega que saiu pelado pela rua. Em Zurich. No inverno.)

Quando a cabeça não pensa o corpo padece!

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